meistudies, 6º Congresso Internacional Media Ecology and Image Studies - A consolidação dos seres media

Tamanho da fonte: 
A VOZ NEGRA NO JORNALISMO: UMA ANÁLISE DO PROTAGONISMO DAS JORNALISTAS NO PODCAST 'ANGU DE GRILO'
Giovanna Tito de Fuccio, Mayra Regina Coimbra

Última alteração: 2023-10-30

Resumo Expandido (Entre 450 e 700 palavras)


Muito se fala sobre representatividade e lugar de fala, entretanto, com frequência esses dois conceitos são confundidos. O lugar de fala refere-se exclusivamente à posição social ocupada por alguém e não a permissão ou proibição dessa pessoa em abordar determinado tema. E a representatividade, especificamente negra e no jornalismo, diz respeito a garantir que profissionais negros estejam presentes nas redações, assumindo papéis de liderança, assegurar que as vozes e histórias da comunidade negra sejam valorizadas, ajudando a evitar estereótipos, preconceitos e desequilíbrios na cobertura de questões relacionadas à comunidade negra.

No entanto, frequentemente ocorre uma confusão entre a representatividade negra no jornalismo e a percepção equivocada de que os negros devem abordar exclusivamente questões relacionadas à sua negritude. Adotar a lógica de que apenas os negros possuem o "lugar de fala" para discutir a negritude não é, de fato, uma expressão genuína de representatividade, mas sim um ato de silenciamento. Inclusive, resulta na desresponsabilização da hegemonia representada pelo homem cisgênero branco, que sequer se envolve nas vicissitudes sociais enfrentadas por quem está fora do privilégio.

A partir desta problemática, será analisado o podcast 'Angu de Grilo', da jornalista Flávia Oliveira e sua filha, a também jornalista Isabela Reis. Nesse contexto, almeja-se compreender como, em espaços que propiciam autonomia de criação e produção como uma mídia alternativa, jornalistas negras têm liberdade para abordar temas abrangentes a partir de sua própria perspectiva, transcendendo as diretrizes editoriais tradicionais que tendem a reforçar estereótipos. Com o poder de decisão em relação a pautas e encaminhamentos, a amplitude de tópicos abordados no podcast é de proporções monumentais, rompendo com a concepção restritiva de que pessoas negras devem se limitar à discussão da negritude. É nesse momento que se concretiza a verdadeira representatividade social.

O propósito da pesquisa consiste então em examinar minuciosamente como as mulheres negras, com destaque para Flávia Oliveira e Isabela Reis, desenvolvem um jornalismo que vai na contramão dessa falsa ideia de representatividade e sim de transformação social, trazendo o protagonismo para as vozes negras. A pesquisa busca analisar o conteúdo trazido durante três episódios - 'Glória Maria e terremoto na Turquia #172'; 'É Carnaval, Lula nos EUA e Rihanna #173'; 'Golpe, indígenas, quilombolas #191'; -  e compreender como o lugar de fala e a representatividade são definidos no podcast, situando este estudo na interseção entre o jornalismo e a questão racial. Recorrendo à utilização de dados qualitativos, pela análise de conteúdo de Laurence Bardin (2011, p.15), será possível empreender uma observação aprofundada do conteúdo disseminado por essas vozes.

Como base teórica dessa discussão, será utilizado os estudos de Bell Hooks (2019), uma autora norte-americana, feminista e ativista antirracista. No âmbito desses escritos, Hooks (2019) aborda de forma recorrente as temáticas de raça, gênero e classe, trazendo à tona a pertinente discussão acerca da representatividade da comunidade negra nos meios de comunicação. Apesar de ser uma obra oriunda de uma perspectiva norte-americana, o conteúdo reflexivo de Hooks transcende fronteiras e encontra eco na realidade brasileira. A autora destaca de forma contundente a necessidade premente de romper com a hegemonia do patriarcado supremacista branco capitalista, com o intuito de descolonizar mentes e concepções arraigadas no imaginário social. Por meio de sua escrita, ela instiga a contemplar uma comunicação antirracista, na qual a representação digna da população negra ocupe um lugar de destaque e dignidade nos meios midiáticos.

Outra vertente teórica de discussão será os estudos de Stuart Hall acerca das questões étnico-raciais. O autor entende as questões étnico-raciais como construções sociais e culturais dinâmicas, influenciadas por relações de poder e discursos dominantes, história e contexto social. Em relação a mídia, Hall enfatiza que as representações midiáticas não são simples reflexos da realidade, mas sim construções simbólicas que são influenciadas por uma variedade de fatores, como valores culturais, interesses políticos e históricos, bem como relações de poder. Ele critica a tendência das mídias em perpetuar estereótipos e narrativas simplistas em relação a grupos étnico-raciais, o que pode reforçar preconceitos e desigualdades sociais.


Referências

Bardin, Laurence. Análise de conteúdo. Edição revista e atualizada. Edições 70, 2011.

Hall, S. Raça, Cultura e Comunicações: olhando para trás e para frente dos Estudos Culturais.  Helen Hugues (Trad.), Yara Khoury (Revisão Técnica). Revista Projeto História. n. 31, 2005, p. 6.

Hooks, Bell. Olhares Negros: raça e representação. Primeira edição, fevereiro de 2019.

 

 

 

 

 

APRESENTAÇÃO

 


Palavras-chave


representatividade; negros; podcast; jornalismo

Texto completo:

PDF - pt