meistudies, 6º Congresso Internacional Media Ecology and Image Studies - A consolidação dos seres media

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A EXPERIÊNCIA UNIVERSITÁRIA AUDIOVISUAL E A FORÇA DA FAVELA NA COVID-19 PELAS LENTES DO LECC
Cristiano Henrique Ribeiro dos Santos, Ana Paula Goulart de Andrade

Última alteração: 2023-10-17

Resumo Expandido (Entre 450 e 700 palavras)


A maior crise sanitária do século trouxe consequências mundiais inimagináveis e escancarou a desigualdade histórica impactando em questões sociais, políticas, econômicas e comunicacionais, que ainda estão sendo processadas pela sociedade. Só no Brasil foram mais de 704 mil óbitos confirmados.

As favelas no Rio de Janeiro, particularmente, passaram por períodos de extrema provação, já que o vírus se espalhou mais rapidamente nos ambientes vulneráveis diante da ausência de políticas públicas, acentuada no governo do então presidente do Brasil, Jair Messias Bolsonaro. O Radar Favela Covid-19 (2020), lançado pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) reuniu relatos que comprovaram a situação dramática enfrentada nestes territórios. Nesse sentido, a Covid-19 evidenciou ainda mais a ineficácia nas periferias das grandes cidades que precisaram se rearranjar, resgatando a força da comunidade liderada por coletivos para driblar as mazelas já estabelecidas, acentuadas pela pandemia.

Temos em mente que o empenho da comunidade no enfrentamento da Covid-19 fortaleceu os vínculos da comunicação comunitária em forma de resistência, a partir do conceito do comum, eixo norteador desta pesquisa, conforme Paiva (2003), Santos (2006) & Sodré (2014).

Foi  neste contexto de incertezas e reinvenção compulsória para sobrevivência nas comunidades do Rio de Janeiro que o Laboratório de Estudos em Comunicação Comunitária da Universidade Federal do Rio de Janeiro - Lecc (CNPq- UFRJ), estreitando as relações da universidade com as populações empobrecidas historicamente, realizou em outubro de 2022  minicursos com mais de 40 coletivos do Estado do Rio de Janeiro para investigar ações geradas no enfrentamento da pandemia, respondendo à crise sanitária e política através de ações diretas com as populações das favelas. Os coletivos que surgiram em 2020 trabalharam inicialmente com a produção de informações sobre a Covid19 e, de acordo com as particularidades das favelas, ao passar do tempo, eles focaram em outras necessidades que surgiram na favela à partir do avanço do coronavírus no país. Ou seja, para além de produzirem comunicação comunitária, focalizaram em saúde pública, fizeram campanhas de incentivo à vacinação (enfrentando o processo de desinformação gerado pelo próprio governo), campanhas pelo direito à água, além de arrecadação de alimentos e kits de higiene para distribuir aos mais necessitados das suas localidades.

Como iniciativa de representação televisual dos coletivos envolvidos na movimento do Laboratório, a coordenação audiovisual do Lecc desenvolveu uma atividade de extensão visando a aproximação dos coletivos inscritos nos minicursos com o corpo discente da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro, reforçando o tripé: ensino, pesquisa e extensão. Para a realização desta fase foi mobilizada uma equipe de reportagem formada por dois alunos da Disciplina de Jornalismo Audiovisual, além de um técnico colaborador voluntário. As etapas (apuração, produção, reportagem e edição) destacaram a intersecção entre teoria e prática. Nesse sentido, “se, por um lado, as disciplinas teóricas embasam o conhecimento sobre o fazer televisivo, por outro as práticas desenvolvem as competências técnicas e as habilidades que possibilitam os exercícios de produção, de acordo com Carravetta (2010, p.11).

Assim sendo, o objetivo deste artigo é mostrar a importância de ações universitárias que revelem  o teor reflexivo do jornalismo audiovisual, conforme Becker, Teixeira & Mateus (2021), além da necessidade de enquadramento de temas sensíveis, plurais, inventivos, democráticos e diversos, bem como o exercício da prática que reuniu vozes do telejornalismo, conforme Machado (2005), tantas vezes silenciadas nos territórios menos favorecidos, mas que foram fundamentais durante o período de pandemia da Covid-19 e que puderam ser, finalmente, ouvidas a partir de produções de duas reportagens sobre a experiência do Lecc, revelando a força do audiovisual na representação das comunidades.

A produção audiovisual voltada para o protagonismo dos representantes dos coletivos flagrou a ausência de representação midiática do cotidiano da favelas, muitas vezes enquadrada pela mídia de referência no valor-notícia tragédia, conforme pontuam Traquina (2005) e Gislene (2014). Assim, compreendemos que ações como as aludidas aqui possam invertem uma realidade que parece já estabelecida: se antes a academia se pautava pelo mercado para produzir e ensinar o jornalismo audiovisual, hoje, podemos pensar que a TV em busca de si mesma, segundo Orozco (2014), requer novos modelos de negócio, que passam pela expertise adquirida dentro de sala de aula nas experiências universitárias, com ações de extensão.

 

 

Referências

Becker, B; Teixeira, J & Mateus, L. (2012). Pensando e Fazendo Jornalismo Audiovisual: a experiência do projeto TJ UFRJ. Rio de Janeiro: E-papers.

Carravetta, L. M. C.(2009). Construindo o telejornal. Porto Alegre: Armazém Digital.

Machado, A. (2005). A televisão levada a sério. São Paulo: Editora SENAC São Paulo.

Orozco, G.(2014). Televisão: causa e efeito de si mesma. In: Carlón, M.; Fechine, Y. (orgs.). O fim da televisão. Rio de Janeiro: Confraria do Vento.

Paiva, R. (2003).O espírito comum. Rio de Janeiro. Mauad.

Radar Favela Covid-19 (2020). Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Recuperado em 24 de julho, 2023, de https://portal.fiocruz.br/sites/portal.fiocruz.br/files/documentos/semanario-covid-favelas-fiocruz-final.pdf

Santos, M. (2006). Por uma outra globalização do pensamento único à consciência universal. Rio de Janeiro/São Paulo, Editora Record.

Silva, G. (2014). Para pensar critérios de noticiabilidade. In: Silva, G.; Silva, M. P.; Fernandes, M. L. (orgs.). Critérios de noticiabilidade: problemas e aplicações. Florianópolis: Insular.

Sodré, Muniz. (2014). A Ciência do Comum: notas para o método comunicacional. Petrópolis,  RJ, editora Vozes.

Traquina, N. (2005).Teorias do Jornalismo – Volume I: porque as notícias são como são. Florianópolis. Insular.

 


Palavras-chave


comunicação comunitária; jornalismo audiovisual; coletivos; pandemia; extensão

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