meistudies, 6º Congresso Internacional Media Ecology and Image Studies - A consolidação dos seres media

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A Região Norte do Brasil no telejornalismo nacional: apontamentos teóricos para uma proposta metodológica
José Tarcísio Silva Oliveira Filho, Rafael Barbosa Fialho Martins

Última alteração: 2023-10-17

Resumo Expandido (Entre 450 e 700 palavras)


Esta pesquisa realiza discussões teóricas, com contribuições metodológicas, para compreender a relação entre as identidades da região Norte brasileira e o telejornalismo produzido para alcance nacional. Para isso, por meio de pesquisa bibliográfica (Stumpf, 2012), são acionados conceitos sobre identidades, mídia, formação do território nortista e o próprio telejornalismo de escala nacional. A região Norte do Brasil envolve sete estados, sendo a maior da nação em termos de extensão territorial. É uma terra de extremos: possui a menor população do país, com 17,3 milhões de habitantes (IBGE, 2023a) e também o menor Produto Interno Bruto entre as cinco regiões (IBGE, 2023b). Por outro lado, é visada internacionalmente pela sua biodiversidade, principalmente pela presença da floresta amazônica, a maior em extensão do mundo.

Neste aspecto, indaga-se o papel do telejornalismo nacional enquanto um possível articulador entre regiões, contribuindo para a inserção identitária do Norte brasileiro em um nível mais amplo. Ressalta-se que essa reflexão não é propriamente inédita: a própria configuração do estabelecimento de redes de afiliadas entre estações de televisão e a proposta de criação de um Jornal Nacional, que integrasse a nação no final da década de 1960, era uma estratégia não apenas empresarial do Grupo Globo, mas também política do Governo Militar vigente, que apoiou a iniciativa e fez investimentos para a transmissão via satélite (Temer, 2019). Coutinho e Musse (2010) dizem que a construção de uma identidade histórica e afetiva de nação esteve presente nas narrativas de jornais desde a segunda metade do século XIX, entretanto, reforçam que “na contemporaneidade  esses  laços  sociais  são  construídos  especialmente  por  meio  das narrativas televisuais, seja nos produtos de caráter ficcional ou nos telejornais [...]” (Coutinho & Musse, 2010, p. 4).

Desse modo, surge a necessidade de discutir o conceito de identidades atrelado à mídia, especificamente ao telejornalismo. A região Norte é composta, entre outros povos, por imigrantes (principalmente de países que fazem fronteira), migrantes nacionais (que contribuíram para o povoamento da região), indígenas (povos originários de diferentes etnias) e ribeirinhos. A diversidade cultural é um aspecto que traz complexidade para o telejornalismo nacional em termos de conseguir abarcar as identidades presentes na região.

Castells (2010) entende a identidade como um processo de construção de significado com base em um atributo cultural ou um conjunto de atributos culturais. São identificadas ao menos três formas de identidades: 1) a identidade legitimadora, introduzida pelas instituições dominantes da sociedade com o intuito de ampliar e racionalizar sua dominação via atores sociais; 2) a identidade de resistência, gerada pelos atores que estão em posições/condições desvalorizadas e/ou estigmatizadas pela lógica da dominação; 3) a identidade de projeto, quando os atores sociais, com base em aspectos culturais que estão disponíveis, constroem uma nova identidade que redefinem sua posição na sociedade, buscando a transformação da estrutura social mais ampla (Castells, 2010).

Não buscamos nesse trabalho classificar as identidades nortistas nas formas identitárias propostas por Castells (2010), mas chamamos atenção para construções metodológicas que deem conta de problematizar as identidades projetadas pelos telejornais, evitando um olhar legitimador para as narrativas que buscam construir uma identidade de nação, no singular. Assumimos, portanto, a necessidade de metodologias transdisciplinares, que não apenas forneçam elementos a partir da Comunicação para análise das identidades em programas informativos, mas que antes, promovam um esforço teórico, por meio das áreas das Ciências Sociais e da Geografia, por exemplo, para compreender aspectos históricos, políticos e culturais que podem problematizar as análises telejornalísticas sobre identidades.

Desse modo, propõe-se trazer para o centro das análises sobre identidades nacionais, focadas na emergência dos regionalismos, não a busca de uma identidade legitimadora, mas o reconhecimento da diferença e da diversidade pelos telejornais nacionais. Essa forma de lidar com as identidades tem sido abordada por autores como Silva (2020) e Woodward (2020), que trazem para o centro do debate o reconhecimento das diferenças, do outro. Logo, a visibilidade das regionalidades nortistas por telejornais nacionais pode ser tensionada pelo reconhecimento de suas diferenças em relação às demais regiões do país, concedendo cores e sons aos povos originários, ribeirinhos e imigrantes, além de temáticas que fazem parte do cotidiano sociocultural da região, como os saberes tradicionais, as disputas locais, as mobilidades humanas, entre outras que se tornam aparentes a partir da transdisciplinaridade.

 

Referências

Castells, M. (2010). The power of identity. Ed. Blackwell Publishing.

Coutinho, I. & Musse, C. (2010). Telejornalismo, narrativa e identidade: a construção dos desejos do Brasil no Jornal Nacional. Revista ALTERJOR, 1 (1), pp. 1-16.

Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE (2023a). Censo Demográfico 2022. https://censo2022.ibge.gov.br/.

Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE (2023b). Produto Interno Bruto – PIB. IBGE, 2023. https://www.ibge.gov.br/explica/pib.php.

Ssilva, T. (2000). A produção social da identidade e da diferença. In: Silva, T. (Ed.). Identidade e diferença: a perspectiva dos estudos culturais (1a ed., Vol. 1, pp. 73-102). Ed. Vozes.

Stumpf, I. (2012). Pesquisa bibliográfica. In.: Duarte, J. & Barros, A. (Eds.). Métodos e técnicas de pesquisa em comunicação. (1a ed., Vol. 1, pp. 51-61). Ed. Atlas.

Temer, A. (2019). O nacional e o local: relações de complementariedade e dependência. In.: Coutinho, I. & Emerim, C. (Orgs.). Telejornalismo local: teorias, conceitos e reflexões (1a ed., Vol. 1, pp. 75-90). Ed. Insular.

Woordward, K. (2000). Identidade e diferença: uma introdução teórica e conceitual. In: Silva, T. Identidade e diferença: a perspectiva dos estudos culturais (1a ed., Vol. 1, pp. 7-72). Ed. Vozes.

 

 

 

 

telejornalismo, Norte, nacional, identidades, regionalismos.

Palavras-chave


telejornalismo; Norte; Brasil; identidades; regionalismos.

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