meistudies, 6º Congresso Internacional Media Ecology and Image Studies - A consolidação dos seres media

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Desertos de notícias e pseudojornalismo em redes sociais: simbiose à desinformação
Liliane de Lucena Ito, Adriel Henrique Francisco Cassini, Letícia da Silva Lima

Última alteração: 2023-10-23

Resumo Expandido (Entre 450 e 700 palavras)


Dados da última edição do Relatório Atlas da Notícia (Projor, 2022), atestam que 53% dos municípios brasileiros são desertos de notícias, o que representa 29 milhões de pessoas sem acesso à informação jornalística profissional sobre suas localidades. Em outras palavras, 5 em cada 10 municípios brasileiros não têm nenhum veículo jornalístico para informar sobre ocorrências e fatos cotidianos daquilo que acontece ao seu redor.

Seja devido ao enxugamento de redações, motivado por uma complexidade de causas que vão da transformação dos hábitos de consumo de informação à dificuldade na instauração de um modelo de negócio jornalístico que seja sustentável (Costa, 2014) ou mesmo resultado da extensão territorial brasileira – de nível continental - , os desertos de notícias são altamente danosos às cidades e comunidades, cuja população se vê à parte no mundo, sem ferramentas confiáveis para se informar sobre sua realidade próxima.

Entretanto, no atual ecossistema midiático, de comunicação digital horizontalizada, acessível, on-line e móvel (Renó, 2015), diversas ferramentas vêm sendo utilizadas, de forma emergente, desestruturada e descolada de preceitos deontológicos da profissão jornalística como canais para divulgação de informação.

Muitas vezes, tais iniciativas atingem o status de notícia ou de jornalismo. É o caso, por exemplo, de perfis em redes sociais como o Facebook, Instagram e/ou Tik Tok que entregam “notícias” locais, sem a presença de jornalistas profissionais em suas equipes produtivas e, em certos casos, sob a alcunha que faz alusão direta a títulos de jornais, como “Araçatuba Acontece” ou “NoticiasAgudos”, por exemplo.

Listas e grupos de Whatsapp e Telegram também se configuram como canais informativos, no qual pseudojornalismo é produzido e disseminado de forma facilitada e livre. Por sua natureza fechada, muitos destes grupos ainda estimulam a amplificação de desinformação de todos os tipos, além de materiais que, em si, configuram-se como criminosos, como cenas em que são expostas vítimas de violência de todos os tipos ou mesmo pedofilia e racismo.

A partir disso, pretende-se realizar, neste artigo, uma articulação teórico-empírica sobre como os desertos de notícia e os perfis pseudojornalísticos colaboram para a amplificação da desordem informacional (Wardle; Derakhshan, 2019), numa relação simbiótica que sustenta a desinformação em regiões mais pobres ou desassistidas, longe de grandes centros urbanos.

Como metodologia, pretende-se acompanhar, durante o mês de setembro de 2023, a produção informativa de um canal do tipo em rede social a ser definida. Em seguida, serão catalogados conteúdos que, apesar de “travestidos de jornalismo”, revelam-se enviesados, publicitários, sensacionalistas, errôneos ou ferem a ética profissional. Para compreender mais sobre o processo produtivo do perfil em questão, serão feitos contatos para a realização de entrevistas em profundidade com os produtores. O cruzamento dos dados selecionados e das falas será, então, analisado de forma qualitativa.

Julga-se que a pesquisa em questão pode sinalizar como usuários comuns têm utilizado o ecossistema midiático atual para monetização, criação de autoridade, dentre outros objetivos, amparando-se no jornalismo tradicional em alguns aspectos de seu modus operandi, mas renegando ou esquecendo outros, conforme a necessidade apresentada.

 

Referências

Costa, C. T. (2014). Um modelo de negócio para o jornalismo digital. Revista de jornalismo ESPM9, 51-115.

PROJOR. Digital reduz desertos de notícia. Relatório Atlas da Notícia. 2022. Disponível em: < https://www.atlas.jor.br/dados/relatorios/ >. Acesso em: 17 jul. 2023.

 

Renó, D. P. (2015). Cidadão mobile: reflexões sobre o ecossistema midiático contemporâneo. Comunicação & Sociedade37(3), 257-274.

 

Wardle, C.; Derakhshan, H. (2019). Reflexão sobre a desordem da desinformação: formatos da informação incorreta, desinformação e má informação. In: IRETON, C.; POSETTI, J. (Orgs.). Jornalismo, fake news & desinformação: manual para educação e treinamento em jornalismo. [s. l.]: UNESCO. p. 46-58.

 

 


Palavras-chave


Jornalismo; Desertos de Notícias; Desinformação

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