meistudies, 6º Congresso Internacional Media Ecology and Image Studies - A consolidação dos seres media

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A MIMETIZAÇÃO DA NARRATIVA JORNALÍSTICA EM CONTEÚDOS DESINFORMATIVOS CHECADOS PELO COLETIVO BEREIA
Victor Vincíus de Santana Palmeira, Fabiana Piccinin

Última alteração: 2023-10-26

Resumo Expandido (Entre 450 e 700 palavras)


Este artigo propõe uma análise da estrutura narrativa dos conteúdos desinformativos que circularam em portais religiosos no período eleitoral de 2022 a partir de checagens do Coletivo Bereia, uma agência especializada em temas e personagens religiosos. No universo das religiões brasileiras, o crescimento de movimentos conservadores no cristianismo, especialmente dos evangélicos[1], refletiu-se na participação em espaços como a política, o judiciário e a mídia[2]. No jornalismo, veículos que se apresentam a partir de um posicionamento editorial identificado com o segmento religioso mesclam “narrativas teológica e factual” e interpretam, “[...] por uma matriz religiosa, acontecimentos do espaço público e da ordem da laicidade (Leitão, 2017, p. 16), dando roupagem jornalística à pautas morais e dogmáticas, e à defesa de interesses políticos, ideológicos e religiosos do grupo (Cunha, 2004). Esta adoção da retórica jornalística nos portais de conteúdo religiosos se complexifica especialmente no contexto da desinformação, onde conteúdos são forjados, adulterados, criados e distribuídos, sem conexão com a verdade, para legitimar discursos que tentam fragilizar os princípios democráticos (Mello, 2020; Rêgo, 2021). Na contemporaneidade, o fim dos grandes relatos de legitimação (Lyotard, 2009), próprios do que se tem denominado como pós-verdade (Cárcova, 2018), e a liquidez das relações sociais (Bauman, 2011) resultam na fragilização do saber científico para explicar o mundo, sendo substituído por outras narrativas, como a religiosa. Nesta pesquisa, a narrativa é definida como um esforço linguístico de organização do mundo diante da impossibilidade de tradução literal do real. A narrativa jornalística emerge como uma construção factual da realidade, para produzir os efeitos de real (a objetividade) e de ficção (subjetividades) no público (Motta, 2008), e seu principal produto – a notícia – desponta como uma produção de sentidos através do relato dos fatos (Lage, 2001; Alsina, 1993). Por outro lado, as notícias falsas e fraudulentas, resultantes da desinformação, mimetizam o formato jornalístico e seu espaço de legitimação através do uso de estratégias de objetivação (Tuchman, 2016), e veiculam visões marcadamente subjetivas de mundo como se fossem fatos (Gomes, 2009; D’Arcadia & Carvalho, 2020). Em razão disso, busca-se, neste artigo, responder à pergunta: Como os elementos da narrativa jornalística são utilizados por conteúdos desinformativos veiculados em portais religiosos? Propomos como objetivos: 1) estudar a Narrativa no campo jornalístico; 2) conceituar e entender o fenômeno da Desinformação nos portais religiosos; 3) identificar a relação entre a narrativa dos portais religiosos cristãos e o jornalismo. Para tanto, utilizaremos a Análise da Narrativa com uma etapa quantitativa que busca elencar padrões de repetição nos seguintes tópicos: Tema; Origem temporal do conteúdo; Origem geográfica; Recursividade audiovisual; Elementos da narrativa jornalística (TUCHMAN, 2016); Personagens; Origem do conteúdo checado (site). Entendemos que, embora os materiais de análise não sejam necessariamente publicados por um mesmo veículo, eles possuem um contexto em comum: a circulação entre um grupo que compartilha o mesmo regime de crença. Os dados serão organizados em planilhas. Na sequência, uma análise qualitativa olhará para as tensões estabelecidas entre a proposta de um jornalismo que busca a objetividade enquanto, em sua práxis, parte de um recorte subjetivo da realidade (Resende, 2011). Buscaremos, nesta etapa: Recompor a intriga (o acontecimento jornalístico); Identificar os conflitos; Esquadrinhar a construção das personagens; Identificar estratégias comunicativas; Identificar as Metanarrativas (Motta, 2008). O corpus da análise é composto por 26 checagens realizadas pelo Bereia entre agosto e outubro de 2022, período de campanha eleitoral. Consideraremos apenas aquelas rotuladas como desinformação e publicadas em portais religiosos (que se intitulam nas abas institucionais como “cristão”, “evangélico”, “gospel”, etc.). Previamente, é possível aferir que os conteúdos checados adotaram uma interpretação maniqueísta do mundo no pleito eleitoral e, pela retórica jornalística, buscaram veicular a metanarrativa de que o mal vence o bem.

[1] Segundo o IBGE, no Censo de 2010 os evangélicos somavam 42 milhões de pessoas (22,1% da população brasileira). Em 1970, o grupo contava com 4,8 milhões adeptos (5,2%). Em 40 anos, os evangélicos cresceram quase 900% (Cunha, 2004). No mesmo período, os católicos enfrentaram uma queda de 91,8% para 64,6% (Agência IBGE Notícias, 2012).

[2] A Frente Parlamentar Evangélica (FPE) no Congresso Nacional é composta por 26 dos 81 senadores (32%) e 220 dos 513 deputados (43%) (Câmara dos Deputados, 2023). No judiciário, podemos citar a existência da Associação Nacional de Juristas Evangélicos (ANAJURE).

 

REFERÊNCIAS

Alsina, M. R. (1993). La construcción de la noticia. Ediciones Paidós Iberica.

Bauman, Z. (2011). Modernidade Líquida. Zahar.

Câmara dos Deputados. (2023). Frente Parlamentar Evangélica do Congresso Nacional. https://www.camara.leg.br/internet/deputado/frenteDetalhe.asp?id=54477

Cárcova, C. M. (2018). Sobre o conceito de pós-verdade. Anamorphosis. 4(1), 5-16.

Agência IBGE Notícias. (2012, 29 de junho). Censo 2010: número de católicos cai e aumenta o de evangélicos, espíritas e sem religião. https://agenciadenoticias.ibge.gov.br/agencia-sala-de-imprensa/2013-agencia-de-noticias/releases/14244-asi-censo-2010-numero-de-catolicos-cai-e-aumenta-o-de-evangelicos-espiritas-e-sem-religiao.

Cunha, M. do N. (2004). Vinho novo em odres velhos. Um olhar comunicacional sobre a explosão gospel no cenário religioso evangélico no Brasil. [Tese de Doutorado em Comunicação, USP São Paulo].

D’Arcadia, J. G. C. F. S. & Carvalho, J. M. (2020). Rupturas estruturais e desinformação: o perijornalismo como instrumento de mimetização noticiosa. [Trabalho apresentado em Encontro]. 18º Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo. SBPJor – Associação Brasileira de Pesquisadores em Jornalismo.

Gomes, W. (2009). Jornalismo, fatos e interesse: ensaios de teoria do jornalismo. Insular.

Lage, N. (2001). Ideologia e Técnica da Notícia. Insular.

Leitão, A. P. B. (2017). Valores-notícia e enquadramentos de ação coletiva no maior portal evangélico do Brasil: o caso Eduardo Cunha no Gospel Mais. [Dissertação de Mestrado, Faculdade de Comunicação, Universidade de Brasília].

Lyotard, J. (2009). A condição pós-moderna. Edições José Olympio.

Mello, P. C. (2020). A máquina do ódio: notas de uma repórter sobre fake News e violência digital. Companhia das Letras.

Motta, L. G. (2008). A Análise Pragmática da Narrativa Jornalística. In: Lago, C. & Benetti, M. (orgs.). Metodologia de Pesquisa em Jornalismo. Editora Vozes.

Rêgo, A. R. (2021). A construção intencional da ignorância na contemporaneidade e o trabalho em rede para combater a desinformação. Reciis (Revista Eletrônica de Comunicação, Informação e Inovação em Saúde). [Entrevista concedida a] Ana Carolina Pontalti Monari, 15(1), 221-232.

Resende, F. (2011). Às desordens e aos sentidos: a narrativa como problema de pesquisa. [Anais do XX Encontro da Compós].

Tuchman, G. (2016). A objetividade como ritual estratégico: uma análise das noções de objetividade dos jornalistas. In: Traquina, Nelson (org). Jornalismo: questões, teorias e estória. Editora Insular, 111-131.

 


Palavras-chave


Desinformação; Coletivo Bereia; Evangélicos; Narrativa Jornalística.

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