meistudies, 6º Congresso Internacional Media Ecology and Image Studies - A consolidação dos seres media

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Estudo das narrativas jornalísticas sobre o fechamento da Fronteira entre o Brasil e a Venezuela durante a Pandemia da Covid-19
Agata do Nascimento Macedo

Última alteração: 2023-10-18

Resumo Expandido (Entre 450 e 700 palavras)


Na última década aumentou a imigração de venezuelanos para o Brasil devido às crises econômica e política da Venezuela. Segundo a Plataforma R4V, em 2022 o número de imigrantes venezuelanos refugiados e com residência temporária no Brasil era de 351 mil. Em março de 2020, a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou a pandemia da Covid-19 e com a facilidade de contaminação, os governos decidiram fechar as fronteiras entre países a fim de evitar maior proliferação do vírus. Este trabalho propõe-se a analisar como as narrativas jornalísticas sobre o fechamento da fronteira entre o Brasil e a Venezuela durante a pandemia da Covid-19 foram construídas por dois webjornais, sendo um de escala nacional e um de escala local, pois segundo Temer (2019), o jornalismo local e o jornalismo nacional caminham juntos, mas muitas vezes olham para lados opostos. Assim, emerge como pergunta de pesquisa: de que modo o portal nacional Folha de São Paulo e o portal local G1 Roraima construíram as narrativas sobre o acontecimento do fechamento da fronteira entre o Brasil e a Venezuela durante a pandemia da Covid-19?

Sayad (1979), sociólogo argelino que teceu na década de 1970 reflexões com referência às migrações dos argelinos para a França, menciona que uma das características da imigração é a de estar destinada a uma dupla contradição: não há como definir se o estado do imigrante é provisório ou permanente. O imigrante e a imigração só são aceitos quando o "cálculo" sobre suas vantagens e desvantagens é contabilizado e tem um resultado positivo, sendo preferencial que tenha apenas vantagens e nenhum custo (Sayad, 1979).

Partindo do ponto de que a mídia faz parte da sociedade e que, “nela/com ela (sociedade), elabora formas simbólicas” (Gontijo, 2002, p. 1), e mais especificamente, que o jornalismo, como campo comunicacional que a perpassa, tem um lugar de privilégio na construção da realidade, pois tem um espaço maior na mídia para narrar os fatos, criando sentidos a partir desses acontecimentos (Borelli, 2005), entendemos como sendo importante o papel do jornalismo nas narrativas sobre as migrações, pois auxilia na construção das representações simbólicas e tem espaço na construção da realidade pelo sujeito. Nos meios comunicacionais conhecidos como tradicionais ou hegemônicos, os imigrantes são muitas vezes esquecidos e colocados como “corpos rejeitados, expulsos, embarcados, desembarcados ou transformados em corpos ilegais” (Albuquerque, 2020, p. 68). Pensando no contexto local de Roraima, Oliveira Filho e Hilgemberg (2020), apontam que, quando a mídia no Estado destaca os acontecimentos em relação à migração, ajuda na construção do imaginário do imigrante e coloca a audiência em um posicionamento em relação a esses processos.

Nesta pesquisa, a metodologia de análise das matérias dos dois webjornais escolhidos foram feitas com base em cinco perguntas, partindo dos estudos de Oliveira Filho (2016, p. 153) que propõe matrizes para analisar a qualidade do conteúdo e da técnica de produções jornalísticas, onde recorremos à segunda vertente da matriz, uma categoria relativa à ética. Das cinco perguntas, duas perguntas foram modificações, realizadas a partir do estudo de Oliveira Filho e Hilgemberg (2020) para adaptar a matriz à mídia/jornalismo digital e à temática das migrações, e três desenvolvidas para englobar as discussões teóricas do trabalho.

Entre os resultados encontrados, observou-se que normalmente os textos jornalísticos são escritos com base nos padrões pré-estabelecidos pela sua organização (Sodré, 2009), isso tornou-se evidente a partir da análise feita, tendo em vista que os dois webjornais analisados abordaram o assunto de formas diferentes. A Folha de São Paulo, mesmo sendo um jornal nacional, conseguiu contextualizar o acontecimento, além de deixar mais evidente a subjetividade do jornalista. Por outro lado, o jornal não trouxe imigrantes como fonte para a notícia. O G1 Roraima contextualizou o acontecimento, trouxe imigrantes como fonte, abordou pessoas com diferentes visões sobre o assunto e conseguiu trazer pontos importantes para a compreensão do fechamento da fronteira. O estudo contribui, assim, para pesquisas futuras sobre a imigração no contexto de pandemia, tendo como ponto de entrada o campo da Comunicação e o reconhecimento dos direitos dessas pessoas, principalmente após a aprovação da Lei de Migração de 2017, que concede direitos igualitários entre brasileiros e imigrantes.

Referências

Albuquerque, F. C. (2020). Corpo suspenso: o (a) imigrante na mídia italiana. [Tese Doutorado em Sociologia]. Programa de Pós-Graduação em Sociologia, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Universidade Estadual de Campinas.

Borelli, V. (2005).  Jornalismo como atividade produtora de sentidos. Biblioteca On-line de Ciências da Comunicação. http/www.bocc.ubi.pt/pag/borelli-viviane-jornalismo-actividade-sentidos.pdf.

Gontijo, M. M. (2002). Contribuições à construção de uma perspectiva híbrida para o jornalismo contemporâneo [Trabalho apresentado em Congresso]. XXV INTERCOM, Salvador, Brasil.

Hall, S. (2003). Da diáspora: Identidades e mediações culturais. Ed. UFMG.

Oliveira Filho, J. T. (2016). Qualidade no telejornalismo: parâmetros para avaliação em emissoras públicas e comerciais (2014-2016). [Dissertação mestrado acadêmico, Comunicação Social, Faculdade de Comunicação, Universidade Federal de Juiz de Fora, Juiz de Fora].

Oliveira,  Filho, J. T; Hilgemberg, T. (2020). A representação de venezuelanos e venezuelanas na mídia local em Roraima. Revista Latinoamericana de Ciencias de la Comunicación, 19, 144-154.

R4V (2022), Plataforma de Coordinación interagencial para Refugiados y Migrantes de Venezuela. https://www.r4v.info/es/refugiadosymigrantes.

Sayad, A. (1979). A imigração de paradoxos da Alteridade. Ed. USP.

Sodré, Muniz. (2009). A narração do fato: Notas para uma teoria do acontecimento. Ed. Petrópolis, Rio de Janeiro: Vozes.

Temer, A. C. R. (2019). O nacional e o local: relações de complementaridade e dependência. En: Coutinho, Iluska; Emerim, Cárlida (Orgs.) Telejornalismo local: teorias e conceitos (1ª ed.,Vol. 5, pp 75-90).  Florianópolis: Insular.

Palavras-chave


Covid-19; Fronteira; Jornalismo; Migrações; Pandemia

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