meistudies, 6º Congresso Internacional Media Ecology and Image Studies - A consolidação dos seres media

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Army-BTS e o voto jovem: aproximações e apagamentos na cobertura telejornalística nas eleições brasileiras de 2022
Sara Rodrigues de Moraes Bridi, Jhonatan Alves Pereira Mata

Última alteração: 2023-11-01

Resumo Expandido (Entre 450 e 700 palavras)


Relatórios e pesquisas que se debruçam sobre a literacia midiática (União Europeia, 2018; 2020; Borges; Barbosa, 2019) apontam a diminuta capacidade ética e interpretativa, em diferentes partes do mundo, ao tratarem do modo como indivíduos consomem, interagem, compartilham e produzem produtos de mídia com vistas a se compreenderem como cidadãos. Se de um lado percebe-se a baixa resposta institucional para lidar com essas questões, especialmente no Brasil, o vácuo que se forma em torno do desenvolvimento de habilidades políticas, sobretudo entre os mais jovens, tem sido preenchido por comunidades de fãs. Hirsjärvi (2013) afirma que as atividades de um fandom permitem observar uma multiplicidade de competências em operação e o desenvolvimento de novas possibilidades de aprendizado. Os fandoms extrapolam seus propósitos primários de  entretenimento para se envolverem em causas defendidas por seus ídolos, valendo-se de estruturas e organizadas em rede em plataformas digitais para articular ações em um mix de informação, militância e entretenimento (Jenkins, 2009). Esta abordagem para alfabetização midiática enfatiza os jovens como capazes, resilientes e ativos em suas escolhas como ambos consumidores de mídia e produtores criativos (Hobbs, 2011). O estudo da cultura de fãs deslocou o entendimento do aficcionado como alguém sem senso crítico ao papel ativo das audiências até definir a identidade do fã pelo seu comportamento, que transforma relações sociais, econômicas e culturais ao nível global (Herrero-Diz, 2017). Curiosamente, os levantamentos realizados no âmbito do projeto Sinestelas (CNPq/UFJF) mostraram a pouca compreensão nas redações de telejornais brasileiros da cultura de fãs, que mal é considerada como notícia. Diante desse cenário e pensando num contemporâneo ambiente de “telejornalismo multitelas”, nossa proposta tem o objetivo de compreender as relações entre os fluxos de comunicação das comunidades de fãs que agem sobre o real e as funções pedagogizantes nas repercussões exibidas nos telenoticiários brasileiros a respeito das ações pró-voto jovem mobilizadas, no período pré-eleitoral brasileiro de 2022, pelo fandom “Army Help the Planet”. Parte-se da ideia básica de que as tecnologias de comunicação e informação geram ambientes que afetam os sujeitos, modelam sua percepção e cognição, interferem na formação de identidades pessoais e de grupo, relações sociais e estruturas de poder (Meyrowitz, 2009). Nesse ambiente, as pessoas são protagonistas efetivas, assumindo centralidade nessas dinâmicas com a produção de novos conteúdos posteriores à recepção. Ou ainda com o consumo desses conteúdos produzidos pelo próprio público. ​Diante da aceleração das inovações tecnológicas, deparamo-nos com uma importante transformação no campo das interfaces, que impacta diretamente nas questões desmembradas aqui: as plataformas digitais, infraestruturas programáveis que facilitam e moldam interações personalizadas entre usuários, organizadas por meio de coleta sistemática, processamento algorítmico, monetização e circulação de dados (Poell; Wall; Dijck, 2018). O fenômeno da plataformização, com novas possibilidades de interação e fluxos comunicacionais, condiciona efeitos múltiplos, desde processos de produção e organização de movimento, passando pela emergência de um espaço político ao alcance das mãos. Ao mesmo tempo, o fenômeno implica em modos de apropriações individuais e coletivas das mídias, além de mudanças nas relações entre produtores e públicos que por vezes alternam nessas “funções” num cenário de prosumers e de estratégias de informalidade e vernizes amadores no audiovisual (Mata, 2019) no desenvolvimento de linguagens e nas formas de expressão, formando um conglomerado de vivências e elementos em interação. Para melhor compreender o espaço transmidiático, onde transitam jovens militantes, e telejornalístico como um locus de ensino, buscamos o conceito de “dispositivo pedagógico da mídia” (Fischer, 2002, p. 153) no qual se nota uma dimensão pedagógica das mídias como parte do processo de educar e emancipar as pessoas por meio de imagens, significações e construções de conhecimentos. Em nosso recorte, mobilizamos 13 matérias de telejornais publicadas durante o período eleitoral, em 2022, que repercutiram ações pró-voto jovem empreendidas por diferentes frentes institucionais e da sociedade civil. Por meio da análise da materialidade audiovisual (Coutinho, 2016), mapeamos indícios, traços e tendências de narrativas, formatos e tecnologias capazes de reunir públicos e telas diversos, com destaque para jovens brasileiros, imersos nos hibridismos entre informação e entretenimento. Como resultados, detectamos um fosso comunicacional entre os processos telejornalísticos e os espaços transmidiáticos por onde transita o público jovem interagente.


Referências

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APRESENTAÇÃO


Palavras-chave


Fandom; Telejornalismo; Voto Jovem; Plataformas Digitais; Dispositivo Pedagógico das Mídias

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