meistudies, 6º Congresso Internacional Media Ecology and Image Studies - A consolidação dos seres media

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Orientalismo em Pauta: uma análise da recepção dos k-dramas na mídia brasileira
Natália Ferreira de Campos

Última alteração: 2023-10-25

Resumo Expandido (Entre 450 e 700 palavras)


Desde que as produções televisas serializadas sul-coreanas romperam a bolha e se tornaram mainstream no Ocidente e especialmente após o sucesso estrondoso de Round Six (Netflix, 2021) não faltaram inúmeras reportagens, posts e análises sobre o fenômeno vindos de todo tipo de publicação. Desde jornais da grande mídia tradicional e revistas como a marxista Jacobin até sites de entretenimento e perfis de fãs dedicados. Apesar das diferenças entre si, parece que a maioria deles têm um ponto em comum: a ideia de que k-dramas são na sua essência produtos de escapismo com histórias melosas que pregam um amor puro, idealizado e uma visão conservadora do mundo (Folha de SP, 04/07/22).

Fica então a pergunta: como surgiu essa definição de que k-dramas são romances água com açúcar e frívolos? Ainda que os k-dramas sejam tão variados em público e gênero narrativo quanto os de qualquer outro lugar do mundo, logo de início o público que primeiro começou a vê-los foi majoritariamente de mulheres, assim como a maior parte das produções que chegavam no Ocidente eram de romances (Rosa, 2019). Isso fez com que os k-dramas fossem associados imediatamente a algo feminino e, da mesma maneira que ocorre com tudo que é feito por mulheres ou para mulheres, também sofreu com a condescendência usada para tratar dessas outras manifestações culturais, como as boy bands por exemplo (Cann, 2015; Gerrard, 2022). À misoginia intrínseca desse discurso junta-se ainda outro fator importante que contribui para reforçar um certo desprezo em relação às produções asiáticas, isto é, a xenofobia, que vai adquirir alguns traços específicos nesse caso como veremos adiante.

Nenhuma dessas noções corresponde à realidade. Afinal, assim como a indústria cultural de qualquer país, a coreana é um espaço de disputas, complexa e contraditória. Além do mais ela não existe apartada do mundo, mas é desde sempre um amálgama de influências. No entanto, nenhum desses discursos é surpreendente ou novo, na verdade estão dentro de uma lógica discursiva bastante antiga e tão poderosa hoje quanto foi no passado, isto é, do Orientalismo. Edward Said, no seu livro de mesmo nome, desenvolveu o conceito de orientalismo, demonstrando como o Ocidente criou discursivamente o Oriente como seu oposto. Nessa condição de “outro” ele se transforma em uma ficção de tudo que o Ocidente não é. Uma ficção que serve principalmente para reforçar uma concepção de superioridade moral que o Ocidente tem de si mesmo: civilizado, moderno, democrático, progressista. O Orientalismo se torna uma ferramenta de desumanização e subjugação, uma vez que o Oriente surge como um lugar estático e imutável no tempo, cultura e sociedade, estando sempre a reboque do Ocidente (Said 2011; Said 2012). Não é difícil perceber a reprodução, consciente ou não, desse tipo de pensamento em discursos atuais sobre as produções asiáticas e seu sucesso. Apesar desse fenômeno já ter sido estudado em relação ao k-pop, especialmente dentro do contexto estadunidense (San Diego, 2018; Gibson, 2019) pouco foi analisado como essa mesma retórica funciona aplicada à recepção do sucesso de outros produtos culturais sul-coreanos, sobretudo no Brasil.

Portanto, nesse texto será realizada uma análise da recepção dos k-dramas no Brasil, com foco em notícias e artigos de veículos tradicionais e sites de entretenimento (como Folha de SP, Estadão, UOL, Jacobin, Rolling Stone, Omelete). Que discursos são reafirmados e ao mesmo tempo construídos, não só sobre esse tipo de produção cultural sul-coreana, mas também o legado orientalista que acabam sendo perpetuados. Quais tipos de relação serão produzidos a partir desses discursos?

Com o sucesso cada vez maior de produções asiáticas numa escala global surge a possibilidade de outras narrativas que fujam da lógica ocidental e vão além daquelas forjadas sob o domínio da hegemonia cultural americana (Albuquerque & Cortez, 2015). Com isso há também o potencial para questionar os discursos e mitos propagados junto dessa hegemonia que são naturalizadas e se tornam verdades absolutas sobre o mundo. Porém, um maior interesse nessas produções não gera necessariamente um empenho similar em conhecer melhor a cultura e história daquela sociedade, suas disputas e contradições (Lyan, 2023). Isso só poderá acontecer caso a interação com essas produções rompa com os discursos orientalistas que ainda dominam a recepção dos k-dramas coreanos e das produções asiáticas em geral.

 

Referências Bibliográficas

Albuquerque, A., & Cortez, K. (2015) Cultura pop e política na nova ordem global: lições do Extremo-Oriente. In Cultura Pop (pp.247-268). Editora Edufba.

Cann, V. (2015) Girls and Cultural Consumption: ‘Typical Girls’, ‘Fangirls’ and the Value of Femininity. In H. Savigny, & H. Warner (Eds.), The Politics of Being a Woman: Feminism, Media and 21st Century Popular Culture (pp. 154-174). Palgrave Macmillan.

Folha de São Paulo. (04/07/2022) Por que doramas e k-dramas, as novelas conservadoras da Ásia, viraram febre no Brasil. https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2022/07/por-que-doramas-e-k-dramas-as-novelas-conservadoras-da-asia-viraram-febre-no-brasil.shtml

Gerrard, Y. (2022). Groupies, Fangirls and Shippers: The Endurance of a Gender Stereotype. American Behavioral Scientist, 66(8), 1044–1059.

Gibson J. (2019) How K-pop Broke the West: An Analysis of Western Media Coverage from 2009 to 2019 International Journal of Korean Studies. Vol. XXII, No. 2, 24-46.

Lyan, I. (2023) Shock and Surprise: Theorizing the Korean Wave Through Mediatized Emotions. International Journal of Communication 17, 29–51.

Park Jae-Yoon; Lee Ann-Gee. (2019) The Rise of K-Dramas: Essays on Korean Television and Its Global Consumption. McFarland & Company, Inc.

Rosa, D. (2019) O que os K-dramas querem? UFRS/Instituto de Artes. Porto Alegre.

Said, E. (2011) Cultura e Imperialismo. Companhia de Bolso.

Said, E. (2012) Orientalismo: O Oriente como Invenção do Ocidente. Companhia de Bolso.

San Diego, A. (2018) K-Pop Orientalism: US Cultural Imperialism in Korean Popular Music from 1954 to 2018. Department of East Asian Studies University of Alberta.


Palavras-chave


Recepção; Orientalismo; K-dramas;

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