meistudies, 6º Congresso Internacional Media Ecology and Image Studies - A consolidação dos seres media

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Fotografia experimental e Modernidade: para uma crítica da tecnologia e do pensamento ocidental
Ludimilla Carvalho Wanderlei

Última alteração: 2023-10-31

Resumo Expandido (Entre 450 e 700 palavras)


A fotografia experimental é praticada desde o século XIX, apresentando-se como uma crítica técnica, estética e conceitual às formas puristas e dominantes de uso do meio fotográfico. Surgida no contexto da Modernidade europeia ocidental, a tecnologia fotográfica torna-se tributária de uma série de valores e ideais que compõem a epistemologia da época, como o racionalismo, o cientificismo e a valorização de uma estética documental, alinhada à vontade de representação fidedigna da realidade. Essa tônica serviu de base para a consolidação de campos de sentido importantes, como as fotografias científica, policial e documental, como atestou Tagg (2005). O fotográfico esteve também vinculado à construção de uma visualidade comprometida com os interesses políticos e econômicos dos países protagonistas dos processos colonizatórios em territórios da América, Ásia e África, já no século XV, conforme nos lembra Azoulay (2019).

O caráter supostamente neutro ou objetivo da fotografia e seu vínculo com a reprodução do real são características atribuídas ao meio que ajudam a formatar parte da produção imagética a partir de um regime visual baseado no perspectivismo, na representação do tempo instantâneo, no apreço pela nitidez. Tais elementos formais constituem uma estética que corrobora certo efeito de transparência, herdada do Renascimento (Machado, 1984)1, um momento histórico que já carrega os valores mencionados, consolidados no século XIX. Esse modelo de representação foi assumido por alguns teóricos importantes em teses ligadas às noções de objetividade, de memória, ou de tempo decorrido, nas já clássicas abordagens de Bazin (2017)2, Barthes (2012)3 e Sontag (2004) sobre a intologia da fotografia.

Contudo, projetos diletantes em relação a essa imagem de contornos descritivos ajudam a escrever a história da fotografia, como indica Gonçalves (2018), mesmo que de forma marginal. Para nós, as investigações fotográficas da cronofotografia, a exploração o flou por Julia Margaret Cameron, as fotomontagens de Oscar Rejlander e das vanguardas artísticas (Dadaísmo, Surrealismo), as experiências da fotografia moderna brasileira, entre os anos 1950-70, são alguns exemplos de que a experimentação foi o caminho adotado por muitos artistas para criar imagens ficcionais, abstratas e híbridas, explorar temporalidades mais complexas que o instantâneo e questionar os pressupostos teóricos e usos dominantes do meio fotográfico. São experiências artísticas que confundem as tentativas de classificar a fotografia buscando singularidades ou traços distintivos capazes de delimitar as fronteiras entre o fotográfico e outras artes. Na verdade, essas experiências pioneiras avizinham a fotografia do cinema, do vídeo, da pintura, através de práticas que embora dispersas geográfica e cronologicamente mostram-se alternativas à agenda formal do mimetismo e da representação verossímil.

Isso nos leva a crer que o experimental respondeu, desde essa época, pelo tensionamento estético de valores essencialmente modernos. Na vertente contemporânea, notamos que a crítica estética à epistemologia da Modernidade ocidental assume um caráter político em projetos de artistas latino-americanos que discutem processos históricos relacionados à colonização, à escravidão, ao racismo científico, à violência de gênero, entre outras questões, como se observa em trabalhos de Eustáquio Neves, Rosana Paulino, Mitsy Queiroz, Gê Viana, Aline Motta, Renata Felinto, entre outros.

A partir de nossas pesquisas recentes - Wanderlei (2022, 2021) e Cruz e Wanderlei (2023) - sugerimos que esse trabalhos podem ser analisados como parte de uma crítica empreendida pelo campo artístico e teórico aos efeitos sociais, epistêmicos e estéticos do pensamento moderno europeu, como proposto por autores como Mignolo (2010, 2008), Quijano (1992), Baio (2022), Almeida (2019), Ferreira da Silva (2020), Gonçalves (2022). Essa leitura pode contribuir para a compreensão da fotografia experimental como prática contemporânea que não se restringe ao desejo de uma investigação formalista, mas que se vale de uma estética de ruídos, impurezas e de base multimídia para problematizar questões sociais, políticas e epistêmicas do Sul Global.

Nesse sentido, buscamos teorizar a respeito da fotografia experimental contemporânea como modalidade que implica, especificamente nos trabalhos de alguns artistas latino-americanos, o uso de uma estética impura e ruidosa (Wanderlei, 2021a) para tratar assuntos relacionados à experiência da colonialidade (Quijano, 1992) gerada pelo projeto político, econômico, espistêmico e estético da Modernidade, constituindo-se como um verdadeiro agenciamento estético-político nas práticas artísticas contemporâneas.

Referências

Almeida, S. (2018). O que racismo estrutural? Letramento.

Azoulay, A. (2019, 29 outubro). Desaprendendo as origens da fotografia. Revista Zum. https://revistazum.com.br/revista-zum-17/desaprendendo-origens-fotografia/

Baio, C. (2022). Da ilusão especular à performatividade das imagens. Significação: Revista De Cultura Audiovisual, 49(57), 80-102. https://doi.org/10.11606/issn.2316-7114.sig.2022.183203

Barthes, R. (2012). A câmara clara: nota sobre a fotografia. Nova Fronteira.

Bazin, A. (2017). Ontologia da image m fotográfica. Em O que é o cinema? (pp. 27-34). Cosac Naify.

Cruz, N. V.; Wanderlei, L. C. (2023). Fotografia experimental: um conceito em construção [Trabalho apresentador em encontro]. 32° Encontro Anual da Compós, São Paulo, Brasil. https://proceedings.science/compos/compos-2023/trabalhos/fotografia-experimental-um-conceito-em-construcao?lang=pt-br.

Fatorelli, A. (2003). Fotografia e viagem: entre a natureza e o artifício. FAPERJ.

Ferreira da Silva, D. (2020). Ler a arte como confronto. Logos, 3(27), 290-296. https://www.e-publicacoes.uerj.br/index.php/logos/article/view/57382.

Gonçalves, F. do N. (2018). Por uma visada genealógica da fotografia contemporânea. E-Compós, 21(2). https://doi.org/10.30962/ec.1454

Gonçalves, F. do N. (2022). O que descolonizar o pensamento quer dizer? [Trabalho apresentado em seinário] Seminário Internacional Migra Media Acts, Braga, Portugal. https://www.academia.edu/83347776/O_que_descolonizar_o_conhecimento_quer_dizer.

Jay, M., & Rivetti, L. (2020). Regimes escópicos da modernidade. ARS (São Paulo), 18(38), 329 - 349. https://doi.org/10.11606/issn.2178-0447.ars.2020.169121

Machado, A. (1985). A ilusão especular: Introdução à fotografia. Brasiliense.

Mignolo, W. (2010). Desobediencia epistémica: retórica de la modernidad, lógica de la colonialidad y gramática de la descolonialidad. Edições del signo.

Mignolo, W. (2008). Desobediência epistêmica: a opção descolonial e o significado de identidade em política. Cadernos de Letras da UFF, 34, 287-324. https://www.academia.edu/43889419/DESOBEDI%C3%8ANCIA_EPIST%C3%8AMICA_A_OP%C3%87%C3%83O_DESCOLONIAL_E_O_SIGNIFICADO_DE_IDENTIDADE_EM_POL%C3%8DTICA.

Quijano, A. (1992). Colonialidad y Modernidad-racionalidad. Em Bonillo, H. (Ed.), Los conquistados (pp. 437-449). Tercer Mundo Ediciones.

Sontag, S. (2004). Sobre fotografia. Companhia das Letras.

Tagg, J. (2005). El peso de la representación. Gustavo Gili.

Wanderlei, L. C. (2021). Desarranjos maquínicos: ruído, tecnologia, imagem. Edição da autora.

Wanderlei, L. C. (2022). But after all, what is the experimental?. Em Giori, P. (Org.), Studies on Experimental Photography (pp. 26-33). International Festival on Experimental Photography.

Wanderlei, L. C. (2021a). Ruído e fotografia experimental: estéticas irregulares para discursos políticos. Esferas, (22), 32-50. https://doi.org/10.31501/esf.v0i22.13331.

 

1 Jay (2020) lembra que outras formas de representação verificadas na pintura holandesa e também no Barroco, posteriormente, assinalam que o modelo perspectivista era dominante, porém não o único da Modernidade. O texto do autor foi originalmente publicado em 1988.

2 Texto original escrito por André Bazin em 1945.

3 Texto original de Roland Barthes de 1985.

 

 

 

APRESENTAÇÃO


Palavras-chave


fotografia experimental; Moderniidade; tecnologia

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