meistudies, 6º Congresso Internacional Media Ecology and Image Studies - A consolidação dos seres media

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Telejornalismo local e o quinto poder: experiências em Minas Gerais e Roraima
Gustavo Teixeira de Faria Pereira, José Tarcísio Silva Oliveira Filho

Última alteração: 2023-10-10

Resumo Expandido (Entre 450 e 700 palavras)


Essa pesquisa busca trazer contribuições críticas para pensar a aplicação dos conceitos de quarto poder (imprensa) e quinto poder (mídias sociais) ao contexto sociocultural brasileiro na análise do telejornalismo local. A partir da pergunta: “Como o quinto poder tem sido apropriado pelo telejornalismo local?”, recorre-se à análise da materialidade audiovisual (Coutinho, 2018) para investigar como os possíveis sentidos desse “quinto poder” emergem em dois telejornais locais de afiliadas da Rede Globo: JRR1 (Rede Amazônica de Boa Vista/Roraima); e MG1 (TV Integração Zona da Mata/Minas Gerais).

Assumimos em nosso trabalho o jornalismo como quarto poder, compreendido como um poder simbólico (Bourdieu, 1987) -não institucionalmente constituído- que ganha diferentes aplicações: fiscalizador/moderador ou “superpoder”. Porém, a partir dos avanços tecnológicos e das transformações dos meios e dos formatos de comunicação, somados a uma falha da imprensa em fiscalizar os demais poderes, Dutton (2009) traz a ideia do “quinto estado/poder” que teria a função de fiscalizar e supervisionar tanto o “quarto poder”, como também os outros poderes, além de ser o guardião da notícia e tradutor de realidades, denominações anteriormente vinculadas à imprensa.

Refletindo sobre as potencialidades do quinto poder, somado a um cenário de interação, integração e disputas entre meios de comunicação e novas mídias digitais, identifica-se novas relações de poder. De um lado, a imprensa busca dar continuidade ao seu “poder” de guardião da informação. Em contrapartida, os usuários na internet passam a criar seus próprios conteúdos, de forma segmentada, e também participam e co-produzem.

Entretanto, ao invés de um cenário de “rivalidade” entre os poderes, observa-se também diálogos e contribuições. Utilizando como estudo o telejornalismo local, muito tem-se discutido sobre a importância do telejornalismo na constituição das identidades locais por meio do processo de produção e consumo da notícia (Batista & Rizzotto, 2016). As dinâmicas concedem cor e sabor ao local e demonstram as identidades, individuais e coletivas, o que reforça a importância do telejornalismo em reconhecer as vozes e os posicionamentos presentes nas mídias digitais, como os oriundos do “quinto poder”, tanto nas notícias, como em uma constituição mais inclusiva do telejornal.

Para refletirmos sobre a emergência do quinto poder pelo telejornalismo local, por meio da análise da materialidade audiovisual (Coutinho, 2018), são elaborados três eixos de análise: a)Complementariedade x adversidade, voltado à identificação, num gesto interpretativo, da relação do telejornal com os usuários; b)Sujeitos de fala e dramaturgia, trata-se de um recorte dos estudos sobre dramaturgia do telejornalismo que originou a análise da materialidade audiovisual; c)Participação do usuário e senso de lugar, busca refletir sobre como a inserção de conteúdo gerado por usuários pode contribuir para a criação do senso de lugar nos telejornais locais.

Como recorte, estabelecemos a semana do dia 19 a 24 de junho de 2023, escolhido de forma aleatória, totalizando 12 edições de dois telejornais locais Praça 1, produzidos por emissoras afiliadas da Rede Globo: o MG1 da TV Integração Zona da Mata; e o JRR1, da Rede Amazônica de Boa Vista. Os acessos foram feitos via plataforma GloboPlay.

De forma sumarizada, a análise demonstra que os espaços em que o público possui representatividade e autonomia ainda são tímidos nos MG1 e JRR1, o que explica uma ausência da manifestação do quinto poder tal como proposto por Dutton (2009). Entretanto, abrem-se caminhos para, inicialmente, duas reflexões sobre a atuação do quinto poder à brasileira. É possível vislumbrar uma atuação para além da mera fiscalização do jornalismo, mas também, de outras instituições sociais. Assim, quadros participativos de denúncia identificados na análise podem ser vistos como uma aliança entre o quarto e o quinto poder na tentativa de cobrar uma “prestação de contas” dos demais poderes.

Uma segunda reflexão, que também atua como contribuição metodológica, considera que a falta de espaço e voz dos cidadãos aponta para a necessidade de articular, em termos analíticos, as narrativas telejornalísticas com as repercussões dos usuários nas mídias digitais. Neste ambiente convergente, sem que se exclua as relações de poderes das mídias sociais, há uma promessa de maior potencial de visibilidade de comentários, críticas e narrativas independentes que apontam tanto para a emergência de quinto poder (Dutton, 2009), ou sua versão “à brasileira”, quanto na valorização das identidades e representações que constituem a formação do senso de local/lugar na sociedade globalizada.


Referências

Batista, M. & Rizzotto, C. (2016). Telejornalismo local: um estudo sobre a representação e construção da identidade. Revista Uninter de Comunicação, 4(6), 3-15.


Bourdieu, P. (1987) O Poder Simbólico. Tradução de Fernando Tomaz. Rio de Janeiro: Editora Bertrand Brasil S.A.


Coutinho, I. (2018). Compreender a estrutura e experimentar o audiovisual - Da dramaturgia do telejornalismo à análise da materialidade. In: Emerim, C; Coutinho, I; Finger, C (Orgs.). Epistemologias do Telejornalismo Brasileiro. Florianópolis: Insular, p. 175-194.


Dutton, W. H. (2009). Through the Network (of Networks) – the Fifth Estate. Journal Prometheus- Critical Studies in Innovation, 27(1).


Dutton, W. H; Dubois, E. (2015). The Fifth Estate: a rising force of pluralistic accountability. Handbook of Digital Politics. Edward Elgar, Cheltenham, United Kingdom; Northampton, United States. 2015.



Palavras-chave


Telejornalismo; Quinto Poder; Materialidade Audiovisual; MG1; JRR1.

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