meistudies, 6º Congresso Internacional Media Ecology and Image Studies - A consolidação dos seres media

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“MINHA HISTÓRIA EU MESMA REQUADRO”. AUTO-REPRESENTAÇÃO NA BIOGRAFIA EM QUADRINHOS DE MARIELLE FRANCO
Suzana Rosa Ataide da Conceição

Última alteração: 2023-10-31

Resumo Expandido (Entre 450 e 700 palavras)


De cria da Maré a símbolo internacional de lutas identitárias, Marielle Franco também foi alvo dos piores memes e fake news. Sua morte precoce deu mais visibilidade para as lutas contra o racismo, misoginia e LGBTfobia. Para reconstruir e reafirmar uma imagem mais representativa dessa mulher negra, periférica e bissexual, o Instituto Marielle Franco, lançou em 2021 a biografia em quadrinhos Marielle Franco Raízes, que conta a história da ativista desde seu nascimento até a graduação como socióloga pela PUC do Rio em 2006.

O artigo, em formato de quadrinhos, utiliza o método da roleta interseccional (Carrera, 2021) para a análise da HQ biográfica. A partir dele identificamos os eixos de opressão que se cruzam em Marielle: gênero, raça, classe e geolocalização. Tomar consciência desses eixos é importante para desenvolver estratégias de conscientização. Dentro desta perspectiva questionamos: como os quadrinhos podem ajudar a reconstruir imagens de mulheres negras e quebrar estereótipos dentro da sociedade?


Quadrinhos e imagens de controle


As imagens de controle são produzidas por grupos dominantes com o objetivo de estabelecer e reproduzir um padrão de violência para que permaneçam sempre no poder. “Isso se dá porque as imagens de controle estão articuladas no interior da histórica matriz de dominação que caracteriza a dinâmica intersectada na qual as opressões se manifestam” (Bueno, 2020, p. 73).

Os quadrinhos têm sido usados historicamente como ferramenta midiativista. Jackie Ormes, por exemplo, foi pioneira ao desenhar uma mulher negra independente e sem estereótipos, quase uma auto-representação (Nogueira, 2013), no projeto Torchy Brown, publicado entre 1937 e 1954. Segundo Neto (2015), a representação desenhada da mulher negra nos quadrinhos brasileiros nessa época variava entre o animalesco, o grotesco e o risível, a exemplo da personagem Maria Fumaça, de Luiz Sá (1950).

Quadrinho 1

Desconstrução das imagens de controle. Fonte: Produção autoral e uma reprodução da personagem Maria Fumaça, 2023.



Quadrinhos reimaginando


Marielle Franco Raízes é uma produção de objetivo educativo, representativo e biográfico a partir da escrita afetiva em primeira pessoa. Usando a roleta interseccional observamos os eixos sociais e de opressão que estiveram presentes na sua vida. Mas a obra traz também superações e momentos de alegria. A imagem de Marielle não cai no estereótipo de que a mulher negra se resume a desafios, dificuldades e tristezas. Ela reconhece e sente orgulho de suas raízes, de ter nascido em uma família periférica, pobre, negra e nordestina.

Quadrinho 2

Fonte: Produção autoral, 2023.


Conforme a roleta gira, as opressões vão ficando mais evidentes, se conectam e intercalam simultaneamente. Ela assumiu muito cedo algumas responsabilidades, teve uma gravidez inesperada, adiou sonhos e encarou o desafio de estudar, trabalhar e ser mãe solo. Mesmo assim, Marielle conseguiu realizar o seu sonho: “mulher, negra, mãe e moradora da Maré, estudar em um lugar onde na época pouquíssimas pessoas como eu conseguiam acessar” (Marielle, 2021, p. 25). E assim ressignificou esse espaço historicamente elitista.


Considerações finais


Os debates e discursos sobre raça, gênero, geolocalização e classe estiveram presentes em produções históricas dos quadrinhos e ganham força com uma nova geração de midiativistas. Marielle Franco Raízes, uma HQ biográfica realizada por pessoas majoritariamente negras, contando a história de uma mulher negra sem reproduzir estereótipos, é um um avanço significativo para os quadrinhos, mas não é o bastante. Grupos historicamente minorizados ainda precisam resistir, conquistar e falar por si mesmos.

Quadrinho 3

Colação de grau graduação. Fonte: Produção autoral, 2023.


Na obra, observamos que a imagem que Marielle tem de si é da mulher forte, resistente e proativa. Dentro da estrutura social a mulher, neste caso a mulher negra, não escapa da figura sobrecarregada da família e, mesmo assim, encara essa situação com coragem e altivez. A forma que Marielle encontrou de negociar a imagem de si e os eixos que lhe atravessam foi inspirar outras meninas negras a conhecer suas raízes, resistir e ocupar espaços sociais. Sua luta, ativismo e resistência se tornaram uma maneira de inspiração em requadros para meninas negras se espelharem.


Referências


Carrera, F. (2021). Roleta interseccional: proposta metodológica para análises em Comunicação. E-Compós, 24. https://doi.org/10.30962/ec.2198

Bueno, W. (2020). Imagens de Controle: Um conceito de pensamento de Patricia Hill Collins. Editora Zouk.

Nogueira, N. A. S. (2013). Jackie Ormes: A ousadia e o talento da mulher negra nos quadrinhos norte-americanos (1937- 1954). Revista Identidade!, 18 (1), 21-38. http://periodicos.est.edu.br/index.php/identidade/article/view/649

Neto,  M. G. de O. (2015). Entre o Grotesco e o risível: o lugar da mulher negra na história dos quadrinhos no Brasil. Rev. Brasileira de Ciência e política - Dossiê Feminismo e Antirracismo, 16. https://doi.org/10.1590/0103-335220151604

Marielle Franco Raízes. (2021). Instituto Marielle Franco. https://www.institutomariellefranco.org/

 

 

 

 


APRESENTAÇÃO

Palavras-chave


Imagens de Controle; Marielle Franco; Quadrinhos.

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