meistudies, 6º Congresso Internacional Media Ecology and Image Studies - A consolidação dos seres media

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CANDIDATOS E JORNALISTAS NO SEGUNDO TURNO DAS ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS BRASILEIRAS DE 2018 PELAS CÂMERAS DO JORNAL NACIONAL
Marta Corrêa Machado

Última alteração: 2023-10-28

Resumo Expandido (Entre 450 e 700 palavras)


Desde que Marshall McLuhan (1969) afirmou que o meio é a própria mensagem, nós, os pesquisadores, tentamos entender as diversas facetas dessas mensagens. No caso da TV, uma delas é a imagem. O caráter audiovisual da televisão nos oferece duas dimensões igualmente significativas em termos de impacto sobre o espectador, que precisam ser estudadas e entendidas: a auditiva e a imagética (Messaris, 1997; Banning & Coleman, 2009; Bock, 2020). As pesquisas sobre campanhas eleitorais no Brasil, no entanto, têm majoritariamente avaliado em profundidade os aspectos textuais das coberturas jornalísticas televisivas, restringindo-se à dimensão auditiva dos conteúdos (Souza, 2007; Bretas, 2009; Carvalho, 2015; Fernandes et al., 2019).

No estudo longitudinal sobre a cobertura dos pleitos estadunidenses realizado por Grabe e Bucy (2009) encontrei boa parte das premissas metodológicas que norteiam esta pesquisa. Para os autores, é possível classificar as diversas possibilidades de posicionamento de câmera e de edição de voz/imagem em valências positivas, negativas e neutras, no que diz respeito ao retorno para o candidato. Em sintonia com essa literatura, aferi as valências desses aspectos na cobertura do dia a dia dos candidatos pelo Jornal Nacional da Rede Globo de Televisão no segundo turno das eleições presidenciais brasileiras de 2018, quantificando planos e agrupando-os, de forma a estabelecer um saldo benéfico ou não para cada candidato.

Ao longo do artigo, fundamento e respondo a três hipóteses geradas a partir da literatura revisada sobre o tema.  No que diz respeito à primeira hipótese levantada no artigo:  H1: Em termos de distribuição total de tempo de matérias sobre os candidatos, O Jornal Nacional não alcançou neutralidade na cobertura do segundo turno do pleito de 2018.

Os dados demonstraram que o candidato Jair Bolsonaro (PSL) recebeu quase oito minutos a mais de cobertura que seu oponente, Fernando Haddad (PT). Os dados demonstraram que, com relação ao tempo total de matérias sobre os candidatos, há um desequilíbrio na distribuição do telejornal. Ainda que a diferença seja modesta, cerca de 12% de vantagem para o candidato Bolsonaro, e que não tenha sido encontrada significância estatística ao rodar o teste de Wilcoxon, é fato que o Jornal Nacional ofereceu um tempo maior de cobertura a Jair Bolsonaro (PSL), o que demonstra um desequilíbrio na exposição dos dois concorrentes na campanha presidencial de 2018. A primeira hipótese levantada, portanto, foi parcialmente confirmada pelos dados analisados, na medida em que a diferença demonstra que o JN não alcançou neutralidade na cobertura do segundo turno das eleições de 2018., ainda que esta parcialidade não tenha sido detectada por significância estatística.

Com relação à segunda hipótese:  H2: A medição de posicionamentos de câmera e da relação voz/imagem na cobertura veiculadas pelo Jornal Nacional sobre o dia a dia dos dois candidatos na cobertura do segundo turno das eleições 2018 indicam viés do telejornal por determinado candidato. Quanto aos aspectos de câmera e à relação entre voz e imagem analisadas na cobertura, Bolsonaro recebeu 5,15 pontos percentuais a mais de valências benéficas para sua campanha que seu concorrente. As diferenças desses aspectos são mais perceptíveis quando agregados, como no estudo aqui proposto. Neles, observa-se uma discrepância que indica o favorecimento do candidato do PSL – 16,4%. No entanto, nos testes de Wilcoxon, os números não apresentaram significância estatística. Mesmo assim entende-se que há uma leve vantagem na exposição de Bolsonaro sobre seu concorrente e, nesse sentido, a segunda hipótese foi parcialmente confirmada.

Com relação à terceira e última hipótese: H3: Na cobertura de segundo turno da campanha de 2018 pelo Jornal Nacional, a presença de jornalistas em tela foi maior que a de candidatos. Apesar de a literatura indicar uma tendência no telejornalismo estadunidense de uma presença maior de jornalistas em tela que de candidatos, os dados da cobertura do JN no segundo turno de 2018 indicam que o mesmo não se aplica ao caso brasileiro. Enquanto os candidatos estiveram presentes 66% do tempo da cobertura em tela, a imagem dos jornalistas ocupou apenas 15%. Também o tempo de voz dos jornalistas (42,7%) não superou o dos candidatos na cobertura do dia a dia dos concorrentes no segundo turno. Assim, a terceira hipótese levantada, com base nos estudos que se dedicam ao tema no contexto estadunidense, não se confirmou no caso brasileiro.

 

Referências

Banning, S., & Coleman, R. (2009). Louder than words: A content analysis of presidential candidates’ televised nonverbal communication. Visual Communication Quarterly, 16(1), 4–17. https://doi.org/10.1080/15551390802620464

Bock, M. A. (2020). Theorising visual framing: Contingency, materiality and ideology. Visual Studies, 00(00), 1–12. https://doi.org/10.1080/1472586X.2020.1715244

Bretas, G. V. (2009). Controvérsias interpretativas na atualidade mediática: Um estudo sobre os enquadramentos do Jornal Nacional. Universidade de Brasília (UnB).

Carvalho, F. C. de. (2015). Mídia e eleições: As entrevistas do Jornal Nacional aos candidatos à presidência do Brasil em 2014. Aurora. Revista de Arte, Mídia e Política, 7(21), 7–25.

Fernandes, C. M., Gomes, V. B., & Coimbra, M. R. (2019). A política na bancada: Confrontação e tensionamentos nas sabatinas do JN nas eleições de 2018. VIII Congresso Da Associação Brasileira de Pesquisadores Em Comunicação e Política (VIII COMPOLÍTICA). www.compolítica.org

Grabe, M. E., & Bucy, E. P. (2009). Image Bite Politics: News and the Visual Framing of Elections. Oxford University Press, Inc.

McLuhan, M. (1969). O Meio são as Massa-gens. Distribuidora Record.

Messaris, P. (1997). Visual persuasion: The role of images in advertising. SAGE Publications, Inc.

Souza, F. das N. (2007). O Jornal Nacional e as eleições presidenciais [Universidade de São Paulo]. https://doi.org/10.11606/T.27.2007.tde-22072009-180558


Palavras-chave


visual framing; telejornalismo; eleições

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