meistudies, 6º Congresso Internacional Media Ecology and Image Studies - A consolidação dos seres media

Tamanho da fonte: 
Videorrelatos: a produção audiovisual investigativa por discentes
Renato Naves Prado

Última alteração: 2023-10-27

Resumo Expandido (Entre 450 e 700 palavras)


Que tipo de conhecimento pode ser construído ao se realizar uma produção audiovisual investigativa sobre determinado tema? Talvez seja justo dizer que só quem já experimentou a produção audiovisual com esse intuito poderia sentir “na pele” as oportunidades de aprendizagem dessa experiência. Com o intuito de facilitar o caminho de quem deseja experimentar tal via, propus a criação de uma formação audiovisual para que docentes conduzam pesquisas/investigações em sala de aula utilizando a produção audiovisual por discentes como condutora da jornada.

Assumir o processo de aprendizagem como uma jornada de investigação pode facilitar as compreensões mais profundas e desafiadores que docentes necessitam desenvolver em sala de aula. O viés de construção investigativa é uma resposta prática ao desafio de se ter a “pesquisa como princípio pedagógico” presente nos regimentos dos Institutos Federais de Educação, Ciência e Tecnologia (IF), de onde parte esta pesquisa. Tal princípio de relação pedagógica está em conformidade com a relação dialógica preconizada por Freire (2019) e com os passos da pedagogia histórico-crítica de Saviani (2012), ambos, referências para os IF.

O termo Videorrelato foi aqui criado para indicar o relato audiovisual sobre uma investigação pedagógica. A criação de videorrelatos foi pensada a partir da relação mediada entre docentes e discentes, na qual será preciso eleger temas a serem investigados que integrem, de alguma forma, as necessidades de aprendizagem da escola e a realidade social das pessoas em sala de aula. Do ponto de vista da técnica audiovisual, a formação para docentes está estruturada em dispositivos que criam parâmetros para a produção audiovisual, facilitando a realização ao criar restrições estratégicas e dinâmicas para registro e edição do material audiovisual.

O conceito de dispositivo explorado neste trabalho foi tomado do Cinema Documentário, mais especificamente em referência à obra do cineasta brasileiro Eduardo Coutinho. Não que este tenha inventado o conceito ou mesmo a prática de se utilizar dispositivos em filmes, mas porque para ele, o uso do dispositivo era o princípio mais importante da proposta de um filme (Lins, 2004). O termo dispositivo tem ecos não só ao mundo das artes mas também em práticas de biologia, onde pode significar a armadilha de captura de determinadas espécies para estudo. Curiosamente, de uma forma mais poética, até mesmo a ideia de armadilha pode vir a calhar à produção audiovisual como foi aqui pensada, uma vez que é esperado que o engajamento necessário à produção audiovisual contribua na assimilação de conhecimentos.

Os dispositivos são como missões de realização audiovisual que se desenrolam visando: desenvolvimento de técnica audiovisual básica/suficiente, a apresentação de aspectos pessoais dos seres em sala de aula, o registro audiovisual de uma pesquisa, o relato em formato de vídeo de um processo de pesquisa e o diálogo em sala de aula sobre as produções ali mesmo realizadas. A opção pelos dispositivos é para apresentar um método que reduza a fricção ou a resistência à adoção da produção audiovisual caso esta seja uma opção que docentes e discentes queriam utilizar. O curso proposto na tese da qual emana esta comunicação é composto por dezesseis dispositivos (até agora), cujo percurso leva à construção de um videorrelato.

É necessário ressaltar que, embora a produção e a circulação audiovisual na esfera digital da internet sejam abundantes, o acesso a tais tecnologias ainda é um fator de exclusão de uma parcela significativa de nossas sociedades (Luis, 2022). Nesse sentido, o intuito de desenvolver uma pedagogia com a produção audiovisual não é um esforço de algo que se pretenda totalizante, ou mesmo que intente afirmar que “não há outra maneira”, ou ainda que “é preciso reciclar” a “mão de obra”. A diversificação pedagógica é um caminho bem mais interessante do que a substituição, até porque o tipo de conhecimento que circula em sala de aula vai muito além de aprendizados pontuais e efêmeros, trata-se do desenvolvimento de pessoas emancipadas do ponto de vista intelectual e tecnológico. A intenção aqui é, portanto, oferecer uma possibilidade, dentre tantas outras possíveis, para docentes que desejem utilizar a produção audiovisual em sala de aula, mas não de uma maneira em que discentes sejam apenas espectadores passivos, e sim com suas próprias realizações audiovisuais.

O desafio que apresentarei neste texto é como fazer isso sem a necessidade de uma formação técnica ou tecnológica aprofundada em audiovisual (do tipo que se espera de profissionais do audiovisual), mas tão somente a partir das habilidades inerentes à docência, com uma pitada de técnicas que estão presentes nos quotidianos de quem acessa e interage nas redes sociais da internet.

Referências

Freire, P. (2019). Pedagogia da Autonomia: saberes necessários à prática educativa. Paz e Terra.

Lins, C. (2004). O documentário de Eduardo Coutinho: televisão, cinema e vídeo (E-book). Jorge Zahar Editor.

Luis, E. S. B. (2022). Desigualdad y acceso. Debates pendientes en el uso crítico de la tecnología en el aula. Em: Moreno Acosta, A. M.; Luis, E. S. B. & Reyna, M. F. (Org.). Experiencias TIC en educación: desigualdad, inclusión y acceso (1ª ed., pp. 17-31). Universidad Autónoma de Coahuila.

Martins, A. F. (2017). Sobre aprender com o cinema. Revista Digital do LAV, 10(2), 6–16. https://doi.org/10.5902/1983734828783

Saviani, D. (2012). Escola e Democracia. Autores Associados.

 

 


Palavras-chave


Audiovisual; Docência; Pesquisa; Cultura Visual

Texto completo:

PDF - pt