meistudies, 6º Congresso Internacional Media Ecology and Image Studies - A consolidação dos seres media

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Futebol e política: análise discursiva do movimento Democracia Corinthiana a partir do documentário "Ser Campeão é Detalhe"
José Carlos Marques, Ana Lúcia Nishida Tsutsui

Última alteração: 2023-10-24

Resumo Expandido (Entre 450 e 700 palavras)


A década de 1980 foi um período de intensa transformação política e social no Brasil. Iniciada em meio à ditadura militar, a década testemunhou a luta pela redemocratização do país. Movimentos sociais e sindicatos ganharam força, exigindo o fim da repressão e a conquista de direitos políticos e sociais. Ocorreram grandes mobilizações populares, como as Diretas Já, que clamavam pela volta do poder democrático pleno. No aspecto social, assistiu-se a um período de contrastes e desafios. O país enfrentou uma grave crise econômica, notada pela inflação descontrolada, aumento do desemprego e diminuição do poder de compra da população. A pobreza e desigualdade social se agravaram, gerando uma maior demanda por políticas de inclusão e distribuição de renda. Ao mesmo tempo, surgiram movimentos sociais importantes, como o movimento negro, feminista e LGBT, que buscavam visibilidade e igualdade de direitos. Essa década também foi marcada pela explosão da cultura popular, com o crescimento da música brasileira, o surgimento de bandas de rock, a ascensão do cinema nacional e a disseminação da televisão como meio de comunicação em massa (Alexandre, 2002; Vieira, 2014). Foi nesse contexto que surgiu a Democracia Corinthiana, movimento pioneiro no futebol brasileiro, ocorrido entre 1981 e 1985, no Sport Club Corinthians Paulista. Para José Paulo Florenzano (2009), a iniciativa foi fruto do processo histórico que vinha se desenrolando no conjunto da sociedade brasileira. Com apoio da diretoria e da presidência do clube, jogadores e funcionários passaram a ter participação ativa em decisões do dia a dia, como contratações, escalações, questões salariais e regras internas, que começaram a ser votadas e definidas em conjunto. Liderado por jogadores como Sócrates, Wladimir, Casagrande e Zenon, o movimento buscava uma maior participação dos atletas nas decisões coletivas, tanto dentro como fora de campo. Embora tenha durado cinco anos, a Democracia Corinthiana é celebrada atualmente como um marco de engajamento político, protagonismo dos jogadores e de luta por direitos e participação dentro do futebol (Florenzano, 2003; Zuaneti Martins, 2012; Zuaneti Martins e Reis, 2014). Seu legado continua a inspirar gerações e a despertar reflexões sobre o papel do esporte na sociedade. A memória do movimento tem sido retratada em documentários, livros, artigos e reportagens. Além disso, ex-jogadores, dirigentes, jornalistas e pesquisadores que participaram, acompanharam e/ou estudaram o movimento são frequentemente convidados para eventos, palestras e entrevistas, onde têm a oportunidade de partilhar suas experiências e perspectivas sobre o mesmo. Nessa seara, encontra-se o documentário “Ser Campeão é Detalhe: Democracia Corinthiana”. O filme de autoria de Caetano Tola Biasi e Gustavo Forti Leitão começou a ser produzido em meados de 2008, como parte da disciplina de conclusão de curso de Midialogia, da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Com duração de 25 minutos, a produção conta com a participação dos ex-jogadores Sócrates, Wladimir, Zenon e Biro-Biro; do publicitário Washington Olivetto; do jornalista Juca Kfouri; dos ex-dirigentes Adilson Monteiro Alves, Waldemar Pires e Sérgio Scarpelli; do ex-treinador Mário Travaglini; do sociólogo José Paulo Florenzano e do historiador Plínio Labriola Negreiros. Por meio de pesquisa bibliográfica e com base nos conceitos propostos pela análise de discurso de linha francesa, o presente artigo pretende analisar discursivamente os sentidos produzidos sobre o movimento Democracia Corinthiana a partir do documentário supracitado. Busca-se compreender as relações de sentido, historicidade e materialidade discursiva identificando os mecanismos que atuam na produção dos discursos midiáticos contemporâneos. Segundo Pêcheux (1969), o discurso não é apenas uma expressão neutra de ideias, mas está sempre ligado a posições políticas e sociais. Ele defende que a análise do discurso deve considerar as relações de poder, as condições de produção, as formações discursivas e as relações interdiscursivas para compreender como os discursos produzem sentidos e estão imbricados em relações sociais e ideológicas. Foucault (2008) também fez importantes contribuições para a análise do discurso, embora sua abordagem seja distinta da de Pêcheux. O autor definiu o conceito de formação discursiva, isto é, um conjunto de práticas discursivas, instituições, regras e estratégias que regulam a produção e circulação do discurso em uma determinada época e contexto. Ele argumenta que os dispositivos discursivos são dispositivos de poder, pois exercem controle sobre o que pode ser dito, por quem e em que contextos. Pretende-se com este estudo, revelar a construção discursiva e simbólica que opera em torno da Democracia Corinthiana, reconhecendo a potencialidade da análise do discurso de linha francesa como instrumento de investigação na compreensão de fenômenos comunicacionais contemporâneos. De forma mais ampla, busca-se desenvolver pesquisas sobre futebol e comunicação esportiva, contribuindo para a consolidação e fortalecimento deste campo de estudos no Brasil.

 

REFERÊNCIAS

Alexandre, R. (2002). Dias de luta. Arquipelago Editorial Ltda.

Florenzano, J. P. (2003). A democracia corinthiana: práticas de libertação no futebol brasileiro [tese de doutorado, Faculdade de Ciências Sociais, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo].

Florenzano, J. P. (2009). A democracia corinthiana. Fapesp, Educ.

Foucault, M. (2008). A arqueologia do saber. Forense Universitária.

Pêcheux, M. (1983). A análise de discurso: três épocas. Em Gadet, F. & Hak, T (orgs.). Por uma análise automática do discurso: uma introdução à obra de Michel Pêcheux (3ª ed., p. 311 – 319). Editora da Unicamp.

Ser Campeão é Detalhe. (2011, 7 de dezembro). Ser Campeão é Detalhe: Democracia Corinthiana – OFICIAL [Vídeo]. Youtube. https://www.youtube.com/watch?v=MNyRGt95cWw&t=15s

Vieira, R. L. (2014). Ecos da ditadura na sociedade brasileira (1964-201). Oficina Universitária.

Zuaneti Martins, M. (2012). Democracia Corinthiana: sentidos e significados da participação dos jogadores [dissertação de mestrado, Universidade Estadual de Campinas, Faculdade de Educação Física]. Repositório da Unicamp. https://repositorio.unicamp.br/acervo/detalhe/874323

Zuaneti Martins, M., Reis, H. (2014). Significados de democracia para os sujeitos da Democracia Corinthiana. Movimento, v. 20, n. 1, p.  81-101. https://repositorio.unicamp.br/acervo/detalhe/1191852


Palavras-chave


Futebol; Política; Análise do discurso; Democracia Corinthiana

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