meistudies, 6º Congresso Internacional Media Ecology and Image Studies - A consolidação dos seres media

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Eu, tu, nós repórteres - Quando profissionais também são pauta: credibilidade jornalística e pacto de confiança entre telas nas rotinas produtivas
Iluska Maria da Silva Coutinho, Gustavo Teixeira de Faria Pereira, Luiz Felipe Novais Falcão, Ana Paula Goulart de Andrade

Última alteração: 2023-10-16

Resumo Expandido (Entre 450 e 700 palavras)


Considerando um cenário convergente (Jenkins, 2009; Salaverría, 2009) e multimídia (Finger, 2012), no qual observa-se uma ampliação e expansão das telas (Mello Silva, 2017), principalmente a partir da interface audiovisual entre o telejornalismo e a internet (Finger & Souza, 2012), há uma significativa mudança nas rotinas produtivas e também nos modos de produção de conteúdo e geração de laços identitários entre o Jornalismo, os jornalistas e o público, com o ambiente digital tendo como potencial o aprimoramento dos meios de comunicação de massa (Dutton, 2009), bem como novos diálogos e possibilidades (Pereira, 2020).

A partir da identificação de um novo cenário em que os jornalistas passam a se colocar como protagonistas das narrativas, como personagens e também como atores sociais digitais que utilizam o seu cargo de jornalista em uma emissora de TV como forma de se comunicar e garantir credibilidade frente ao público nos espaços digitais (Coutinho, 2022), a proposta deste trabalho é lançar um olhar para as representações identitárias de telejornalistas a partir das telas de aplicativos e redes sociais digitais em diálogo com as próprias profissões.

A justificativa deste trabalho está pautada na personalização da credibilidade da informação e nas novas relações de confiança do jornalismo e dos jornalistas televisivos com seus públicos (Coutinho, 2022), um movimento em crescimento no Brasil e que tem ganhado forças em meio à “pandemia de desinformação” (Wermuth et. al, 2022) que atingiu o país de forma conjunta com a pandemia da Covid-19 entre os anos de 2020 e 2022. Mas que vai em direção contrária a alguns dogmas da profissão, como aquele de que jornalista não é notícia. Soma-se a isso que a credibilidade é o principal antídoto à fake news (Porcello, 2020), sobretudo no ambiente televisivo que nos últimos anos sofreu recorrentes ataques políticos (Falcão & Assis, 2021), sustentados pela ideia de fratura da democracia no Brasil. Nesse sentido, os jornalistas reorganizaram os processos das rotinas produtivas e apostaram em seus relatos credíveis como reforço na dose de confiança que enlaça o acordo tácito do jornalismo entre telas e a sociedade composta por uma audiência ativa e potente.

Para tal, utilizaremos como metodologia a Análise da Materialidade Audiovisual (Coutinho 2016; 2018), que tem como intuito analisar o texto e o paratexto de forma unitária e sem decomposições. Nesta medida, buscamos analisar imagens e vídeos de repórteres, apresentadoras e apresentadores de TV no momento em que usam da rotina da atividade profissional para abordar aspectos pessoais das suas vidas e vivências, tomando como recorte perfis de profissionais que se destacam por esta característica de utilizar as redes sociais digitais como forma de reforçar o seu trabalho enquanto jornalista.

Parte da proposta metodológica de realizar uma entrevista do objeto, a investigação será realizada a partir de três eixos de análise: 1) crítica realizada à organizações de mídia que são demonizadas por esquerda e direita; 2) mudanças potencializadas pelas redes de aproximação e comunicação pessoa-pessoa - ainda que mediadas pelos algoritmos; e 3) questionamento da narrativa única e emergência do microrrelatos.

Como resultados preliminares, reiteramos o intercâmbio entre telas que vem sendo observado na mesma medida em que dicotomia entre o “eu-trabalhador” e “eu-social” vem alargando seus limites, revelando assim a amálgama indissociável das duas esferas que, por décadas, foi construída narrativamente junto com utopias do telejornalismo como a imparcialidade.

Por meio de uma mudança de perspectiva e percepção sobre o trabalho de telejornalistas e o comportamento deles próprios em relação a apresentarem-se como tais ganham nuances e detalhes de apresentação do eu para além do empunhar o microfone, os resultados preliminares apontam para o uso da curiosidade habitual despertada pelos “olimpianos” (Morin, 2018) de outrora vem sendo aplicado na dissolvido dessa imagem.

Assim o apelo de sensibilidade e afeto do trabalho de jornalistas revela a dimensão humana do e no trabalho e traz profissionais para a condição de ser integral. Estes paratextos da ontologia jornalística trazem, inclusive, novas marcas de legitimidade para as narrativas telejornalísticas. Pessoas que, ao trabalhar, também sentem, vivem e são reais.

 

Referências

Coutinho, I. (2022). Credibilidade como valor personalizado no telejornalismo: Vínculos tecidos em rede entre audiência e jornalistas profissionais. [Trabalho apresentado em congresso] 45º Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação - Intercom, Paraíba, Brasil.

Coutinho, I. (2018). Compreender a estrutura e experimentar o audiovisual: da dramaturgia do telejornalismo à análise da materialidade. C. Emerim, I. Coutinho, & C. Finger (Orgs.), Epistemologias do telejornalismo brasileiro (1a ed., Vol. 7, pp. 175-194). Insular.

Coutinho, I. (2016). O telejornalismo narrado nas pesquisas e a busca por cientificidade: A análise da materialidade audiovisual como método possível. [Trabalho apresentado em congresso] 39º Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação - Intercom, São Paulo, Brasil.

Dutton, W. H. (2009). The fifth estate emerging through the network of networks. Prometheus, 27(1), 1-15.

Falcão, L. F. N., & Assis, I. P. (2021). Cercados: a construção de uma narrativa audiovisual em defesa da informação e da liberdade de imprensa. Interin, 26(1), 97-118.

Finger, C., & Souza, F. C. (2012). Uma nova forma de ver TV no sofá ou em qualquer lugar. Revista FAMECOS, 19 (2), 373-389.

Jenkins, H. (2009). Cultura da Convergência (2a ed.). Aleph.

Mello silva, E. (2017). Bases Epistemológicas do Telejornalismo: entre a teoria e a prática. [Trabalho apresentado em congresso] 15º Encontro Nacional de Pesquisadores em Jornalismo, São Paulo, Brasil.

Morin, E. (2018). Cultura de massas no século XX - O espírito do tempo: neurose e necrose (11a ed.). Forense.

Pereira, G. T. F. (2020). Novas Telas para o Telejornalismo: o conflito entre o quarto e quinto estado/poder e a expansão do conteúdo para além das localidades [Dissertação de Mestrado, Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal de Juiz de Fora].

Salaverría, R. (2009). Los medios de comunicación ante la convergencia digital. [Trabalho apresentado em congresso]. I Congreso Internacional de Ciberperiodismo y Web 2.0, Bilbao, España.

Wermuth, M. A. D., DE MORAIS, J. L. B., & FESTUGATTO, A. M. F. (2022). A pandemia da desinformação: covid-19 e as mídias sociais-do fascínio tecnológico à (auto) regulação. Revista Quaestio Iuris, 15(1), 377-397.

 


Palavras-chave


Telejornalismo; Credibilidade; Rotinas Produtivas; Análise da Materialidade Audiovisual; Jornalista.

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