meistudies, 6º Congresso Internacional Media Ecology and Image Studies - A consolidação dos seres media

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A CONTRA-HEGEMONIA SEM TERRA NA DISPUTA TERRITORIAL: POLITIZAÇÃO E DISPUTA DISCURSIVA SOBRE A FOME NO SITE DO MST
Wellington de Oliveira Pereira, Paulo Henrique Caetano, Deborah Luisa Vieira dos Santos

Última alteração: 2023-10-30

Resumo Expandido (Entre 450 e 700 palavras)


Central nas dinâmicas sociais, a comunicação é fundamental na produção de sentido a partir de relações, com os processos comunicativos não sendo atividades isoladas, mas vinculada a contextos e à constituição da realidade dos sujeitos e suas relações de poder (Borges, 2013; Bourdieu, 1989; Maia, 2008). Além disso, o campo é responsável por conferir visibilidade a outros campos, tornando-se agente central para o reconhecimento social e na transformação de questões sociais em demandas políticas (Maia, 2008). Ciente dessa condição, os espaços comunicacionais são disputados por agentes com diferentes interesses em processo contínuo de avanços e retrocessos nos quadros sociais, culturais e políticos. Essas disputas discursivas e por visibilidade midiática são basilares para as lutas hegemônicas, principalmente ao compreender que os territórios são constituídos pela conflitualidade em seus espaços imateriais – no qual acontecem as lutas simbólicas – e espaços materiais (Fernandes, 2009). Assim, a territorialização está vinculada às duas dimensões, sendo construídas mutuamente e com ambas sendo estruturadas e estruturantes (Borges, 2013).

A partir da multidimensionalidade dos territórios, evidencia-se que as intencionalidades dos agentes que os disputam são construídas ideologicamente e materialmente (Fernandes, 2009). Dessa forma, a concentração fundiária brasileira pode ser entendida como consequência das relações sociais, econômicas e políticas historicamente construídas, ao mesmo tempo em que a detenção dos espaços materiais confere ainda mais poder na atuação imaterial dos agentes. Um dos resultados dessa desigualdade histórica, perpetuada pelo atual modelo político e econômico, que encontrou na gestão Bolsonaro um momento de intensificação, é a fome.

O agronegócio, agente central na disputa territorial em diversos âmbitos, ocupa posição de destaque no debate sobre a fome. O setor alcançou grande poder no atual cenário sociopolítico, atuando na construção ideológica e nas decisões políticas do país (Delgado, 2012). Enquanto agente hegemônico, o agronegócio conta com o suporte estatal, de grandes conglomerados midiáticos e do capital financeiro, formulando um grande bloco que, apesar de existir uma heterogeneidade interior, atua de forma coesa (Pompeia, 2018). Esse poder resulta em recordes de produção e exportação de grãos noticiados quase diariamente, enquanto o crescimento vertiginoso da fome, do desmatamento e da violência contra povos tradicionais, dimensões ligadas diretamente ao setor, são silenciados.

No sentido contrário estão os movimentos sociais, destacando-se o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), um dos principais da América Latina e ator social fundamental na contraposição do agronegócio nas disputas territoriais. A relevância do Movimento o torna alvo de violências físicas e simbólicas, com uma história marcada por luta e resistência aos constantes ataques sofridos. Como forma de enfrentamento à hegemonia, o MST recorre à formação política, social, educacional e cultural de seus membros, sendo característica de suas ações junto à sociedade. A comunicação e a politização são elementos fundamentais do Movimento, tornando possível uma leitura mais abrangente dos problemas sociais a que se opõe e fundamentando o projeto popular que constrói.

Pensando nas disputas discursivas entre distintas sensibilidades do mundo, opta-se por analisar as abordagens midiáticas sobre a fome no site do MST. Para isso, foi construído um corpus de análise a partir de pesquisa avançada no buscador do Google, delimitando a palavra “fome” no site do MST. O recorte escolhido foi de 01 a 30 de setembro de 2022, com o objetivo de ilustrar algumas questões discutidas nos tópicos teóricos a partir de abordagens distintas pelos portais sob a perspectiva da (des)politização (Hay, 2007). Utiliza-se a Análise Indireta de Enquadramento (Vimieiro & Maia, 2017), escolhendo matérias que trazem a fome como elemento central e analisando duas categorias chaves: as causas e soluções propostas. A Análise do Discurso (Fairclough, 2001) é acionada com o intuito de compreender a relação do agente e veículo com os contextos econômico, político e social, expondo suas posições nas estruturas sociais e relações de poder.

A análise identifica um posicionamento de enfrentamento aos valores e leituras hegemônicas, apresentando forte caráter politizador nas matérias, com apontamento de relações mais complexas entre causas e soluções, além de expor a fome como resultante de decisões econômicas, políticas e sociais.


Referências

Borges, R. M. R. (2013). O território geográfico como categoria metodológica dos estudos em Comunicação Social e Jornalismo. Contemporânea. 11(1). https://doi.org/10.12957/contemporanea.2013.6961

Bourdieu, P. (1989). O poder simbólico. Bertrand Brasil.

Delgado, G. C. (2012). Do “capital financeiro na agricultura” à economia do agronegócio: mudanças cíclicas em meio século (1965-2012). Editora UFRGS.

Fairclough, N. (2001). Discurso e mudança social. Ed. UNB.

Fernandes, B. M. (2009). Sobre a tipologia de territórios. Em: Saquet, M. A. & Sposito, E. S. Territórios e territorialidades: teorias, processos e conflitos. Editora Expressão Popular.

Hay, Collin. (2007). Why we hate politics. Polity Press.

Maia, R. C. M. (2008). Mídia e deliberação. Editora FGV.

Pompeia, C. (2018). A concertação política do agronegócio e os direitos territoriais

indígenas e quilombolas. Anais do 42o Encontro Anual ANPOCS.

Santos, M. (2007). Território, territórios: ensaios sobre o ordenamento territorial. Lamparina.

Vimieiro, A. C. & Maia, R. C. M. (2011). Análise indireta de enquadramentos da mídia: uma alternativa metodológica para a identificação de frames culturais. Revista FAMECOS: mídia, cultura e tecnologia, 18 (1), 235-252.

 

 

 

APRESENTAÇÃO


Palavras-chave


Análise de Enquadramento; Comunicação e Poder; Despolitização; MST; Território

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