meistudies, 6º Congresso Internacional Media Ecology and Image Studies - A consolidação dos seres media

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DASEIN DIGITAL: O SIGNIFICANTE DE MUNDO E SUA VERDADE VIRTUAL
Rodrigo Malcolm de Barros Moon, Maria Cristina Gobbi

Última alteração: 2023-10-22

Resumo Expandido (Entre 450 e 700 palavras)


Este trabalho visa explicitar a transição do modo de situação e compreensão da realidade através de imagens, a partir das novas técnicas de produção imagética. O conceito de dasein, ser-aí, como formulado por Martin Heidegger, se refere ao ser-estar no mundo, sua relação com o que nos cerca (espaço e tempo). Refere-se à experiência relacional de sujeito e objeto pela mediação da mente. Nosso umwelt (universo particular), que antes se limitava à percepção sensorial do corpo, hoje é ampliado por aparelhos tecnológicos que nos criam informação sobre eventos e tempos alhures. Temos em mente que habitamos, todos, a mesma Terra, e operamos conceitualmente a simultaneidade dos acontecimentos em um espaço tão vasto quanto a superfície terrestre. Nos situamos no Real a partir de nossos sentidos e, semioticamente, dos signos por eles apreendidos. Significamos o Real a partir da representação, ela mesma mediação do ser com a realidade objetiva. Criamos uma imagem mental deste mundo que habitamos, com seus limites e características, e o utilizamos como base para um pensamento que nele se situa. Dessa perspectiva emerge o conceito de verdade como aquilo que subsiste para além da representação: verossimilhança. A verdade enquanto conceito pode ser pensada como resultado de um procedimento social de validação de uma representação. E para além da representação, da coisa em si. Os regimes de verdade se alteram ao longo da história precisamente em decorrência dos novos métodos e saberes construídos, para sua legitimação social como portadora da verdade. Ela é fruto, assim, da técnica de fabricar enunciados verdadeiros, quando aquilo que se vê e aquilo que se fala designam a mesma coisa.

Com a mediação digital, esta heurística se transforma sobremaneira, uma vez que o sujeito não precisa estar presente no acontecimento para ter acesso às informações por ele engendradas. Sempre através de um enquadramento, um recorte, imagens e vídeos retratam um mundo alhures que o sujeito toma como verdadeiros, visto serem produtos técnicos da fotografia – ou assim éramos acostumados a pensar. As técnicas de fabricação de imagens forjadas pela modernidade garantiam representações fidedignas a um significante de mundo: uma foto era mais fiel que uma pintura. Hoje, entretanto, derivadas das técnicas de deep learning, obtivemos algoritmos generativos que produzem imagens a partir de textos, com base na interpretação de acervos de imagens. Não somente, através de softwares podemos alterar e produzir imagens sem realidade, criando representações sem referenciais fixos. O que isto produz é uma quebra com a imagem tradicional, transitando para as imagens técnicas, como as batizou Flusser. A correspondência imagem-realidade cai por terra, cada tecnoimagem faz referência a um conjunto de virtualidades que lhe dota de potencial de significação. Seu potencial comunicacional altera-se mais para um sistema de conotação do que de denotação, deixando para trás uma ética de comunicar a verdade.

A primeira consequência que gostaríamos de apontar é que o sujeito, não possuindo os métodos para decifrar e criticamente aferir o caráter de verossimilhança da imagem, pode ser levado a significar a fantasia por realidade. A segunda deriva da complexificação da primeira: ao longo do tempo, cada imagem se articula com outros representantes pouco verossímeis, criando uma trama semântica que permite ao sujeito significar o mundo a partir de ilusões, meias-verdades ou até mesmo mentiras deliberadas. A verdade foge de seu estatuto de atualidade (semelhança com a experiência) para o de uma virtualidade: são verdades potenciais cujo sentido advém da ressonância com outras informações nos ambientes digitais: são imagens mentais produzidas por operações lógicas. Por fim, este trabalho visa apontar a transição ontológica de um dasein analógico, por assim dizer, mediado pela experiência; para outro digital, mediado por códigos digitais que determinam as experiências, alterando o significante de mundo e a própria noção de verdade do sujeito, colocando em cheque nossa comunicação imagética a partir das tecnologias das quais fazemos uso.


Palavras-chave


Dasein; Imagem; Tecnologia digital; Verdade; Semiótica

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