meistudies, 6º Congresso Internacional Media Ecology and Image Studies - A consolidação dos seres media

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O Videocast 360° como Novo Gênero do Audiovisual Imersivo de Não-Ficção
Carolina Gois Falandes, Denis Reno

Última alteração: 2023-10-11

Resumo Expandido (Entre 450 e 700 palavras)


As tecnologias digitais têm impulsionado transformações significativas em setores estratégicos da produção de conteúdos, como os de Entretenimento, Publicidade, Esporte e Jornalismo. A consolidação da Internet, em especial, deu origem a um novo sistema de comunicação, apoiado em redes, pelo qual transitam diferentes atores – prosumers, streamers, influencers e podcasters, por exemplo –, responsáveis pelo aumento exponencial de informações que podem ser consumidas na contemporaneidade. A reboque desse cenário, regido pela lógica de plataformas cada vez mais convergentes, desponta a necessidade de reconfigurações das formas tradicionais de bens culturais.

É o caso da televisão, que tem se adaptado diante da ascensão dos dispositivos inteligentes, investindo na divulgação de conteúdos para múltiplas telas em programas de diversos segmentos, inclusive de natureza jornalística. Veículos de imprensa televisivos vêm experimentando linguagens inovadoras para seguir paradigmas da cibercultura (Lévy, 1998). Uma delas é a implementação de QR Codes para fomentar a interatividade do espectador, direcionando-o – por meio de marcadores gráficos nas imagens – até narrativas complementares hospedadas em sites e outros espaços virtuais, condução configurada como experiências de segunda tela. Apesar de o uso desse tipo de elemento visual no suporte televisivo ser debatido na literatura há algum tempo (Calixto, 2016; Angeluci et al., 2017), ganhou novo fôlego na área da informação com a pandemia de COVID-19, ocasião em que sua adoção tornou-se comum em variadas instâncias, como nos ramos de alimentação e saúde (Cartes-Barroso, 2022).

Na esteira desse raciocínio, a presente proposta discute a utilização do QR Code enquanto mecanismo para oferecer ao telespectador vídeos 360°, modalidade imagética que eleva a um novo patamar à aproximação do público com a realidade noticiosa, possibilitando a ilusão de estar presente no local dos acontecimentos (Pérez-Seijo & López-García, 2019). Práticas jornalísticas brasileiras baseadas na integração entre narrativas esféricas e a televisão são avistadas desde 2015, encabeçadas por emissoras como Globo, SBT e Rede TV (Mello Silva & Yanaze, 2019), mas, nos últimos anos, observa-se uma diminuição expressiva da disseminação desses projetos a nível internacional, o que se estende à situação de mídias informativas exclusivamente on-line (Falandes & Renó, 2022b; López Hidalgo, Méndez Majuelos & Olivares-García, 2022). Pesquisas têm apontado algumas justificativas para esse quadro, como a preferência das empresas jornalísticas por vídeos efêmeros do TikTok em relação às peças 360° (Sidorenko-Bautista, De La Casa & Cantero de Julián, 2020), o fato de o formato esférico não ser encarado algo prioritário (Melo & Menezes, 2020) e a falta de uma linguagem consolidada dessas produções (Falandes & Renó, 2022a).

Paralelamente a esse momento de estagnação, percebe-se que a Record TV (Brasil) permanece apostando na tecnologia 360° e em sua confluência com a televisão e demais plataformas (Falandes & Renó, 2022a). Considerando tal perspectiva, este estudo se concentra no exame de produtos lançados pelo departamento de jornalismo da emissora apoiados em imagens esféricas, “Viagem ao Continente Gelado” e “Maratona de Jerusalém”, de 2023, que se destacam por explorar um novo gênero do audiovisual imersivo de não-ficção, o videocast 360°. Trata-se de estética inspirada nas premissas do podcast e do videocast, formas culturais de entretenimento que têm recebido maior atenção recentemente. Em termos metodológicos, a investigação é classificada como um estudo de casos múltiplos (Yin, 2018), pautado na interpretação da estrutura transmidiática das reportagens especiais – com ênfase nas escolhas referentes à linguagem 360° –, além do alicerce de entrevistas concedidas por profissionais da Record TV ligados aos projetos. Para a revisão bibliográfica, são articuladas contribuições relacionadas à convergência no ambiente televisivo, interatividade, telejornalismo e suas conexões com narrativas imersivas.

Dentre os resultados, cabe realçar que as obras avaliadas evidenciam arranjos distintos. “Viagem ao Continente Gelado” revela-se uma produção mais multifacetada, com cinco episódios e uma chamada para TV, além de podcast, videocast 360°, diário de bordo multimídia e reel (Instagram) como conteúdos extras na web anunciados via QR Codes durante a exibição das reportagens televisivas. Já “Maratona de Jerusalém” abarca somente quatro produtos: uma matéria na TV, podcast, peça de divulgação no Instagram e videocast 360°, este último o único indicado por meio de marcador gráfico na televisão.

A título de conclusão, acrescenta-se o videocast 360° ao leque de possibilidades existentes no campo das produções esféricas de não-ficção, a exemplo dos documentários imersivos. Mais um modelo narrativo para pensar essa gramática emergente.

 

 

Referências

Angeluci, A. C. B., Calixto, G. M., Bevilaqua, L. M., Bernardini, G., & Gobbi, M. C. (2017). QRcode, hashtag or audio watermark? A case study on second screening. Multimedia Tools and Applications, 76(5), 7519-7534. http://dx.doi.org/10.1007/s11042-016-3417-z

Calixto, G. M. (2016). A interoperabilidade nos sistemas de televisão digital interativa [Tese de Doutorado, Escola Politécnica da Universidade de São Paulo - USP]. Biblioteca Digital de Teses e Dissertações da USP.

Cartes-Barroso, M. J. (2022). Audiovisual journalism and technological innovation: The QR codes on Spanish television. VISUAL REVIEW - International Visual Culture Review / Revista Internacional de Cultura Visual, 11(4), 1–13. https://doi.org/10.37467/revvisual.v9.3687

Falandes, C. G., & Renó, D. P. (2022a). Immersive Multi-Screen Journalistic Narratives: A Study on 360-Degree Language in the Context of the COVID-19 Pandemic. Interactive Film and Media Journal, 2(4), 57-65. https://doi.org/10.32920/ifmj.v2i4.1675

Falandes, C. G., & Renó, D. P. (2022b). Narrativas inmersivas durante la pandemia de Covid-19: Un análisis de videos 360 grados en YouTube. Revista Panamericana de Comunicación4(1), 84–97. https://doi.org/10.21555/rpc.v4i1.2554

Lévy, P. (1998). A Revolução contemporânea em matéria de comunicação. Revista Famecos, 5(9), 37-49.

López Hidalgo, A., Méndez Majuelos, I., & Olivares-García, F. (2022). El declive del periodismo inmersivo en España a partir de 2018. Revista Latina de Comunicación Social, (80), 15-27. https://doi.org/10.4185/RLCS-2022-1536

Mello Silva, E., & Yanaze, L. K. H. (2019). Telejornalismo imersivo: aspectos históricos e conceituais da narrativa imersiva na televisão brasileira. Discursos Fotograficos15(26), 142–170. https://doi.org/10.5433/1984-7939.2019v15n26p142

Melo, R. de A., & Menezes, A. S. (2020). Realidade Virtual em 360º e Inovação: Potencialidades e ausências nos portais Correio 24 horas e NE10. Revista Mídia E Cotidiano14(3), 219-242. https://doi.org/10.22409/rmc.v14i3.38738

Pérez-Seijo, S., & López-García, X. (2019). Narrativas inmersivas aplicadas al relato no ficción: elementos que contribuyen a generar la ilusión de presencia. Textual & Visual Media, 1(12). Recuperado de https://textualvisualmedia.com/index.php/txtvmedia/article/view/217

Sidorenko-Bautista, P., Herranz de la Casa, J. M., & Cantero de Julián, J. I. (2020). Use of New Narratives for COVID-19 Reporting: From 360º Videos to Ephemeral TikTok Videos in Online Media. Tripodos1(47), 105-122. https://doi.org/10.51698/tripodos.2020.47p105-122

Yin, R. K. (2018). Case study research and applications: design and methods (6a ed.). SAGE.


Palavras-chave


Comunicação; Videocast 360°; Telejornalismo; QR Code; Narrativa Transmídia.

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