meistudies, 6º Congresso Internacional Media Ecology and Image Studies - A consolidação dos seres media

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A preocupação socioambiental e o ativismo a partir de uma representação audiovisual amadora: veredas documentais do pescador Nilton, o Capiau.
Adriano Medeiros Rocha

Última alteração: 2023-10-27

Resumo Expandido (Entre 450 e 700 palavras)


Esta investigação apresentará um dos novos agentes realizadores de um cinema socioambiental digital brasileiro. Nilton César, mais conhecido como Capiau, é pescador artesanal e registra, através de produções audiovisuais amadoras, seu cotidiano às margens do Rio da Onça. Ele constrói narrativas possíveis de aproximação aos filmes documentais e que, ao mesmo tempo, destoam da unidade básica da indústria cinematográfica. A partir de um recorte no acervo produzido por este protagonista, interessa perceber as principais características narrativas e estéticas contidas em suas produções, difundidas publicamente pelo canal do Youtube Casa do Capiau. Neste sentido, as relações entre essa mídia e as práticas culturais adotadas pelo realizador serão abordadas. A pesquisa também busca entender as formas e estratégias de produção e difusão deste acervo levando em conta a perspectiva da temática de preocupação socioambiental.

Saberes e conhecimentos tradicionais de ribeirinhos, que são passados de geração em geração, influenciam na formação de identidade das comunidades e dos indivíduos que ali pertencem. Reconhecer as mudanças nos meios de comunicação ocasionadas pelo avanço das novas tecnologias e considerar o desdobramento destas mutações nos modos de conexão com esses saberes é um passo importante para se considerar as narrativas audiovisuais autônomas como pertencentes ao campo documental.

Como foi introduzido, nesta pesquisa interessa analisar um recorte do trabalho do pescador artesanal Nilton César, mais conhecido como Capiau, que também é produtor de vídeos difundidos a partir da web. No canal Casa do Capiau ele publicou sua primeira produção em 24 de setembro de 2015. Hoje, a publicação está com 55.708 visualizações, e sua página conta com 171 mil inscritos.

Naquela janela de exibição, o realizador apresenta seus vídeos de pescarias, rodas de causos, conversas e violas, técnicas e dicas do preparo dos peixes, encontros em ranchos da região do Rio da Onça, em Embaúba – interior de São Paulo, além de uma visão ambientalista que revela a importância da manutenção e preservação do patrimônio natural.  A partir do conjunto formado pelo seu acervo - dentro de um cinema fragmentado, este personagem revela uma relação íntima com o Rio da Onça e uma percepção sensível a respeito dos conflitos e injustiças ambientais. De acordo com Francisco Elinaldo Teixeira (2004) uma das tendências do documentário contemporâneo é a interseção visível entre o lugar do realizador e a câmera como o olhar que o representa.

É notável que a representação do modo de vida registrado em suas produções revela uma visão que não perpassa pelos meios tradicionais do cinema documental, mas transita nas teorias que abrangem as narrativas autônomas e independentes. O resultado disso é uma representação de que possui menor interferência de filtros e padrões clássicos de produção.

Aqui serão analisadas algumas dessas obras audiovisuais amadoras buscando semelhanças a conceitos que também se relacionam com o cinema documental. Pretende-se compreender as relações que são reveladas no fazer fílmico do pescador, uma vez que essas narrativas prosaicas disponibilizadas na rede remetem a reflexões sobre os lugares de existência do cinema. O registro da interação entre Capiau e aquilo que ele documenta pode ajudar a compreender a versão deste personagem representado dentro da linguagem audiovisual, acerca de suas vivências, aprendizados e memórias.

Através do referido canal, Capiau disponibiliza conteúdos que antes eram repassados pela linguagem oral com limitações como a perenidade e o próprio alcance. Assim, as redes sociais possibilitaram um novo meio por onde esse conhecimento pode ser ecoado e difundido. Neste ponto da pesquisa, o conceito de lugares de memória, trabalhado por Pierre Nora (1998), também parece bastante dialógico com esta proposta.

 

Junqueira, A. R. (2012). O lugar da memória no documentário. [Trabalho apresentado em congresso]. XXXV Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação, Fortaleza, Brasil.

Nora, P. (1998). Entre Memória e História: a problemática dos lugares. Projeto História 10. https://revistas.pucsp.br/index.php/revph/article/view/12101

Teixeira, F. E. (2004). Eu é outro: documentário e narrativa indireta livre. En: ---. (org.) Documentário no Brasil: tradição e transformação. Ed. Summus.


Palavras-chave


Cinema socioambiental; Cinema independente; Narrativas autônomas

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