meistudies, 6º Congresso Internacional Media Ecology and Image Studies - A consolidação dos seres media

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IA: reflexões sobre uma nova janela
Matheus Tagé

Última alteração: 2023-10-19

Resumo Expandido (Entre 450 e 700 palavras)


Desde a invenção da Fotografia, no século 19, o processo de interação com a realidade assumiu um caráter técnico. Algo que se articula a partir da ruptura com relação à subjetividade da pintura, em detrimento da pretensa objetividade da nova tecnologia, enquanto mecanismo de construção de representações da realidade. O imaginário de mundo se fragmenta a partir da percepção da imagem técnica. Da fotografia - representação estática da realidade - ao cinema, com a ilusão do movimento. O percurso da imagem é de constante desmaterialização, como aponta Fontcuberta (2012). Se observarmos a alta espessura de representações do mundo, a partir das imagens técnicas, podemos verificar um processo de dissimulação dos espaços do real (Baudrillard, 1991). A partir do advento da fotografia digital, pontuamos a aceleração do tempo de produção e processamento de imagens. Em uma etapa posterior, permeada pelas impermanências do contemporâneo, a interação com o meio, por meio da gamificação fotográfica (Tagé, 2022), assume o protagonismo enquanto variável intrínseca da imagem digital. Neste contexto, observamos a proliferação de imagens pós-fotográficas; cenas captadas por drones, imagens processadas em dispositivos de geolocalização, registros de mundos virtuais como videogames, ou a reinterpretação do real, por meio de memes. A imagem torna-se imagem-fluxo; resultado do processo de aceleração, provocado pelo consumo infinito de representações imagéticas - uma resposta ao ritmo e materialidade das redes. Estas imagens-fluxo se consolidam, e articulam um esvaziamento do caráter documental da fotografia, ao ponto de possibilitar o surgimento de um novo paradigma que se apresenta no campo da imagem: a Inteligência Artificial. Esta nova tecnologia simula visualmente as relações com a realidade. De modo que anula a relação concreta da fotografia enquanto registro do mundo. Em paralelo, a Inteligência Artificial decodifica tudo em imagem, a partir de infinitos bancos de dados e representações, programadas e repetidas nas profundas estruturas algorítmicas das redes. Chama a atenção, também, o fato de que isto acontece por meio da palavra escrita, traduzindo qualquer estímulo em registro visual, como no caso do aplicativo Midjourney. O paradoxo se dá a partir da perspectiva de que é necessário estudar e analisar de forma crítica os impactos e possíveis aplicações desta nova tecnologia. O processo e construção de imagens artificiais alcança tamanha verossimilhança que, por vezes, dificulta a possibilidade de se identificar, ou atestar, a veracidade destas representações. Artistas, fotógrafos, designers, e todo tipo de usuário destes aplicativos de IA, têm produzido materiais interessantes para embasar esta proposta epistemológica. Este artigo pretende analisar de forma crítica este novo passo das tecnologias de comunicação; e apontar uma possível abordagem antropológica para esta nova forma de ver o mundo. Nesta análise crítica, apontaremos por meio de estudos de caso, a utilização destes mecanismos, e as possíveis implicações socioculturais que se apresentam para a comunicação e para as sociabilidades. O descolamento do real, sob a ótica da técnica, é um ponto crucial a se estudar; assim, esta pesquisa propõe apontar o processo como um reflexo da necessidade humana de descolamento da própria realidade.

 

Referências Bibliográficas:

Barthes, R. (1980). A Câmara Clara. Nova Fronteira.

Baudrillard, J. (1991). Simulacros e simulação. Relógio d´agua.

Burke, P. (2017). Testemunha ocular: o uso das imagens como evidência histórica. Editora Unesp.

Cartier-Bresson, H. (2015). O imaginário segundo a natureza. Gustavo Gili.

Didi-Huberman, G. (1998). O que vemos, o que nos olha. Editora 34.

Flusser, V. (2002). Filosofia da caixa preta: ensaios para uma futura filosofia da fotografia. Relume Dumará.

Fontcuberta, J. (2012). A câmera de Pandora: a fotografi@ depois da fotografia. Ed. G. Gilli.

Machado, A. (2015). A Ilusão Especular. Gustavo Gili.

Murray, J. (2003). Hamlet no holodeque: o futuro da narrativa no ciberespaço. Itaú Cultural, Editora Unesp.

Tagé, M. (2022). Gamificação Fotográfica: a lógica das imagens-fluxo. In: A. Martins, D. Guimarães, L. Margadona, L. Bordim, N. Viola, & P. Freixa (Coords.), Sobre as Artes (pp. 185-202). Ria Editorial.



Palavras-chave


Fotografia; Pós-fotografia; Imagens-fluxo; Inteligência Artificial; Gamificação Fotográfica;

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